quinta-feira, 31 de julho de 2008

ÔNIBUS LOTADO - Flamarion Silva

Ônibus lotado. Mais de uma hora do bairro em que moro até o centro da cidade, onde trabalho. Olho o ferro da cadeira e muitas mãos seguram firmes por causa dos solavancos do ônibus e também para não perderem o espaço. Uma brechinha, entre uma mão preta e cabeluda e uma delicada e branca de mulher. Solto a mão esquerda do ferro do teto do ônibus e intento colocá-la entre a mão preta e a mão branca, mais perto da branca, é claro, que não sou trouxa. Minha mão desce descontrolada e bate na cabeça do homem sentado à minha frente. O tipo, barba de três dias, cara por natureza enfezada, troncudo, olha pra cima e diz: porra, caralho, isso é uma cabeça. Desculpe aí, digo. Ele resmunga qualquer coisa, se ajeita na cadeira me empurrando para o corredor e retesa os músculos do braço, do peito, das pernas, do corpo todo. Todo o tipo é só massa. Me seguro para não encostar nele. Só que atrás de mim todo mundo que passa empurra, e aí esfrego o pau no ombro do cara sentado à minha frente, e de novo ele olha pra cima, diz uma palavrão, resmunga e me empurra com o ombro para o corredor. A viagem toda é isso, todos uns fodidos enfiando uns nos outros. No final a gente se acostuma e aceita que a coisa tem que ser assim mesmo. Naturalíssima.
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Mãozinha macia, branquinha. No dedo de casada a aliança. Minha mão anelando o ferro, folgando um pouco, encostando o indicador na pele de seda, escorregando meio boba mais para o centro da mão dela, que está também meio frouxa. Buraco na pista, solavanco, a mão branca da mulher casada escorrega no ferro e fica batendo na minha preta. Comercial. United colors of Benetton. Mulher branca com filho café-com-leite no banco de trás do carro luxuoso, um negro no volante, o carro pára, aproxima-se uma amiga da mulher que está no banco de trás e diz: hum, de motorista, hein! É meu marido, responde a outra. Você precisa rever seus conceitos, diz a mensagem. Não tá vendo não que sou casada? Pergunta a dona da mão branca, quase chorando. Que foi, minha senhora, tá me estranhando, é? Pronto, todo mundo no ônibus toma partido da ofendidinha. Pára no módulo! grita um crioulo que nem eu lá de trás. Que é isso, minha senhora, acha que tenho cara de quem faz terra em mulher casada? digo, sério. Sou até crente. É que dei um jeito de me esfregar no traseiro dela, músculos definidos, o pau bem no meio deles, a gostosa gostava, eu sei que gostava; o preconceito é que é foda. Surupembou. Você precisa rever seus conceitos, diz a mensagem.
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Ônibus lotado. Uns caras se penduram na porta. Uma velhinha se pendura na porta. Eu vou cair, diz ela sorrindo quando o ônibus arrasta. Tem uma velhinha pendurada na porta, motorista, grita um. Motorista, seu maluco, tem uma velhinha pendurada na porta, grita outro. Ai, eu vou cair, diz a velhinha sorrindo. O ônibus pára. Uma ranchada de pivetes avança e empurra a velha para dentro. O ônibus tá cheio, não tem mais lugar, gritam todos de dentro. Também somos trabalhadores, temos o direito de viajar, gritam desaforados os pivetes. Com jeito a velhinha cruza a borboleta e um senhor também de cabelos brancos se levanta e diz: senta aqui, minha velha, devia ter entrado pela frente. Com essa idade e ainda não entra pela porta da frente. A velha se acomoda e a viagem continua. Tem que passar pra frente, diz o cobrador, aí não dá pra ficar. Os pivetes trabalhadores se olham, pronto, é agora. Cala essa boca, filho da puta! diz o menor deles com a arma na mão. É um assalto! Passa a grana! Rápido! O cobrador, com a arma apontada na cabeça, rápido raspa o dinheiro da gaveta e entrega ao pivete. Este sorri e olha seus companheiros de trabalho. Perfeito, diz um deles. Tá aprovado, diz um outro que parece ser o chefe da gangue. O ônibus pára e eles saltam, como se nada tivesse acontecido. Somos trabalhadores, vocês estão roubando trabalhadores, seus pivetes, grita uma mulher de dentro do ônibus. E nós, não somos? responde um deles, esse é nosso trabalho. Pensa que é fácil, é?
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Revista policial. Desce todo mundo, as mulheres podem ficar, diz o policial com a arma na mão. Encosta aí, com as mãos pra cima; abre as pernas! abre as pernas! já mandei, e dá um pontapé na perna do homem que vai trabalhar. O homem, com medo, humilhado, abre as pernas, tremendo de medo. O policial enfia a mão por baixo. E você aí, o que tem nessa sacola? Coisas minhas, responde o rapaz. Joga tudo no chão! manda o tira. São coisas minhas, besteiras, nada de mais. Coisas suas, besteiras, nada de mais porra nenhuma, arranca a sacola da mão do rapaz e joga tudo no chão. Olha só pra isso, o filho da puta é veado, diz o policial com raiva, e toma, toma, toma pra aprender a ser homem. O rapazinho, envergonhado, humilhado, abaixa-se e pega suas coisinhas, cremes, esmaltes, perfumes, calcinhas. E você ai, negão, o que que tá olhando? Nada não senhor, responde o negro forte, tão negro e tão forte que nem o policial, musculoso de tanto carregar material para a construção dos ricos. Músculos. Só músculos. Seu polícia, uns pivetes, lá atrás, roubaram o ônibus, diz uma mulher. O policial, depois de bater, humilhar, assustar todo mundo, escancara sua bocarra de dentes cavalares, faltam uns três na parte de trás, e, gargalhando, diz: como “roubaram o ônibus”, então ele não está aqui? Toda a gangue da polícia ri do gracejo inteligente do comparsa. O ônibus arrasta, os policiais, os pivetes, ficam pra trás.
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Rapazes e moças fardados no fundo do ônibus. Batucam. Dizem que são estudantes. Essa cambada! Diz o passageiro trabalhador que quer aproveitar a viagem longa e tirar uma soneca. Mas não pode. Os marginais se sentam nos encostos das cadeiras e com os pés batendo nos assentos e as mãos socando o teto do ônibus fazem a festa. Quem quer seda? Diz um com voz normal, e logo os outros respondem com voz grossa, quem quer seda? Todo mundo que vai trabalhar e já está cansado se incomoda, mas ninguém diz nada. Béééé! Cócócócó! Mulher passando na rua. Fiufiu! Tesuda! Ah, ela deu o dedo, goza o comparsa ao lado, sua vaca, aqui pra você ó. E voltam a zoar mais eufóricos. Quem quer seda? diz o chefe da gangue com voz comedida. E logo os outros num coro de vozes avolumadas, quem quer seda? E batem, e zoam, são estudantes. O ônibus pára e eles, assim por onde entraram, passam e saem: pela janela, ou pela porta do fundo, raramente pela porta da frente. Ficam pra trás, assim como ficaram os policiais, os pivetes, outros trabalhadores, etc.
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Fim de mais um dia de trabalho. Dureza. Corpo quebrado. Uma fome! Sem contar que o patrão, assim que o empregado chegou, logo cedo, um pouco atrasado por causa da demora do ônibus, do engarrafamento e da revista policial, foi logo dizendo: bonito hein, e isso são horas de chegar? Vou descontar. Desconta no dinheiro, acrescenta no trabalho, como se fosse direito fazer isso. O empregado aceita calado e às vezes até agradece por o patrão ser tão compreensivo. Outros, poucos, sofrem implosão, aquilo que acontece com os prédios, que ruem sobre si. Mordem-se de raiva. Melhor seria fossem homens-bomba, aquele kamikazes que se explodem, explodem-se, mas levam junto uma cambada. Os caras são muito loucos! Mas tudo isso é besteira. E o brasileiro não teria coragem. Melhor é comer calado feito um carneirinho, bicho no cabresto. Béééé!
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Agora o ônibus vai, aos poucos, deixando para trás as luzes iluminadas dos bairros ricos, as calçadas bem calçadas dos nobres, as vitrines cheias de roupas chiques dos chiques, o perfume e o cheiro bom do que é bom. A brisa que vem do mar é fresca, as gentes, que não são “a gente”, na orla também são frescas. E sorriem com todos os dentes, e correm, e vão, e passam à frente. O ônibus agora corre e vai, passando os postes que vão ficando pra trás, e que mal iluminam as ruas mal iluminadas com suas lâmpadas quase apagadas, ou sujas, ou quebradas, ou... o ônibus tomba, buraco na pista. Tomara que não quebre, tomara que não quebre, meu Deus, rezam todos que querem chegar logo em casa, e que são as boas mocinhas, os bons mocinhos, os estudantes, os policiais, os pivetes, os trabalhadores, etc. Do lado a calçada verde vai passando, e os galhos dos matos batendo na lataria do ônibus. Do mato vem um cheiro de mato, e dentro do ônibus um cheiro humano, um calor humano que sufoca. Meu Deus, aonde nos levará este ônibus?


Flamarion Silva é autor baiano, contemporâneo dos escritores Carlos Vilarinho, Heitor Brasileiro Filho, Renata Belmonte, Tatiane Gonçalves, Andreia Donadon, Gustavo Dumas, Edinara Leão, todos mostrando o homem do século XXI.

2 comentários:

gláucia lemos disse...

Maravilha, Flamarion, isso é a crônica da Cidade do Salvador, século XXI. Parabéns mesmo. O leitor acompanha o trajeto do ônibus, sente no início aquela inquietação do começo do dia, e, no final, o cansaço, a dor da alma dos que se esfalfam a troco de tão pouco, para os quais o regresso a casa é a única tranquilidade que lhes resta.

Anônimo disse...

Gostei muito do conto. Ah, como eu gostaria de ter talento para escrever!!
Carmem Lúcia