domingo, 13 de julho de 2008

EU E O WORD- de Valdeck Almeida de Jesus

Era uma despretensiosa manhã de sexta-feira. Acordei, espreguicei-me todo e voltei a enroscar-me no edredom - sim, durmo enrolado num edredom, sobretudo para me proteger das muriçocas que perturbam a noite inteira.
O calor é insuportável no quarto da frente, onde prefiro dormir. Mas dali posso sentir o vai-e-vem das pessoas lá fora, que me inspira as mil e uma histórias que gostaria de escrever. Locais demasiadamente calmos nem sempre contribuem para a inspiração da minha natureza frenética. Quero ser escritor e orgulho-me de meu jeito diferente de querer ser escritor. Afinal, todo escritor é diferente. Mas quero ser diferente de todos os diferentes.
Escrever para mim é um sonho. É ver as palavras caminharem sozinhas; é ver a folha em branco se vestir de letras, símbolos, vírgulas, pontos e outros sinais que, juntos, vão provocar uma emoção final.
Mas eu falava da manhã daquela sexta-feira. "Sexta-feira" me remete à história do escravo de uma fazenda de açúcar, que ficou conhecido com este nome. Minha mãe contava que, segundo relatos, esse rapaz, o Sexta-Feira, havia morrido por causa de uns roubos ocorridos na fazenda onde morava. Todos os roubos aconteciam às sextas-feiras. Geralmente, ele era pego com a "mão na botija" e sempre perdoado pelo patrão. Até que um dia amanhecera morto com as formigas a lhe devorar os lábios. Cena tétrica. Imaginem só, em plena sexta-feira da Paixão, uma coisa dessas... Não poderiam ter escolhido outra data para matar o infeliz? Nem dia santo se respeitava mais para matar.
Espreguiçava-me, precisava me levantar. O dia me chamava. O sol rasgava minha janela, metendo-se por entre as frestas. Um raio do maldito sol me incomodava, a lamber meus olhos como um cão que lambuza o rosto do dono, ao menor sinal de carinho. Precisava me levantar. Mas a vontade mesmo era de ficar ali para sempre, pensando no que fazer, aguardando uma inspiração súbita para começar a escrever. Afinal, eu queria ser escritor. E escritores precisam de uma inspiração e das palavras somente.
Acabara de perder o emprego de repositor num grande supermercado da cidade. Estava preocupado com as contas da casa: luz, água, remédios de minha mãe, que me enchia o saco para comprá-los. Tudo isso me martelava a cabeça e me incomodava demais. Preferia fechar os olhos, virar para o lado e ali permanecer, não fosse o incômodo raio de luz a desvirginar a menina dos meus olhos. Dei uma piscada para mim mesmo, como se tivesse tido uma idéia brilhante, e levantei de um pulo só.
Corri pelo estreito corredor, esqueci o calor, as muriçocas, o maldito raio de luz. Nem abri a janela para ver o que acontecia lá fora. Havia gente gritando e correndo. Devia ser mais um tiroteio, fato comum aos costumeiros acontecimentos daquele bairro miserável, que não conhecia justiça nem respeito. Respeito ali era confundido com o temor imposto pelos mais fortes e pelos traficantes.
Eu não queria apodrecer naquele lugar, como o escravo das histórias de minha mãe. Eu queria ser importante, um doutor, um letrado, um escritor. Não mais trabalharia para quem quer que fosse. Eu ia ser escritor e trabalharia para mim mesmo, escrevendo histórias da vida real e fazendo sucesso no mundo das letras. Aquele bairro imundo e amaldiçoado jamais me veria de novo. E aquele quartinho quente e abafado, aquelas muriçocas, que me conheciam desde a tenra infância, não me reencontrariam jamais.
Fui ao sanitário, fétido e minúsculo, ao lado da cozinha, aliviei-me dos dejetos que esperaram a noite inteira para abandonar o corpo e corri para o computador 486, que havia ganho na sorte. Deu zebra! Ganhei um computador no bicho. Com o pouco de dinheiro que tinha no bolso, decidi fazer uma fezinha na zebra, que resolveu me ajudar a comprá-lo. Após adquiri-lo, deixei-o por alguns meses parado no canto do quarto, pensando no que fazer com ele, já que mal sabia ligá-lo. Mas posteriormente aprendi a digitar.
Pensava que datilografar e digitar significassem a mesma coisa, quando procurei uma escola de datilografia. Na verdade, nem era uma escola. Era uma improvisação de escola, nos fundos de uma vila, de propriedade de Neuza. Neuza possuía quatro máquinas e dava aulas para ganhar a vida. Diziam que havia sido mulher da vida e que tinha se regenerado. Veio do Pará sozinha, depois chegaram mais duas primas. Com menos de um ano na cidade, Neuza já tinha conseguido abrir uma escola. Ô gente de sorte! Nasci e me criei na miséria, nunca pude ser independente. Quando falei a Neuza que queria aprender datilografar no computador, ela reagiu com uma risada estridente, que denotava desprezo e gozação. Neuza se achava "a boa". Só porque tinha uma escolinha de merda, se achava a "poderosa do pedaço".
Engoli seco e me contive, afinal precisava dela. Não fosse esse detalhe, teria lhe quebrado o resto dos dentes estragados que ela mostrava quando sorria. Fiquei calado para não derrubá-la de um soco. Ela me deu aulas de datilografia por três meses. Depois que comprou um computador para a escola, tomei com Neuza mais alguns dias de aula de digitação. Estava certo de que um dia eu viria a ser um escritor famoso. Esta convicção fazia com que freqüentasse assiduamente as aulas de datilografia, todas as noites, após o trabalho. Tirava a farda do trabalho, que tinha uma estrela imensa aplicada nas costas, tomava um banho, comia algo e lá ia eu, para a escola. Embora as estrelas sejam fontes inspiradoras de poetas e escritores, aquela estrela no meio da farda incomodava-me sobremaneira.
Fui dispensado do trabalho porque as vendas caíram. Eu não tinha nada com isso, nem trabalhava com vendas. Mas, como não havia gente comprando, não compensava para a empresa ter dois repositores. Lenito, o cara mais chato da face da terra, o mais puxa-saco que já conheci, permaneceu no emprego. E eu levei azar. Mas assim é a vida. Além disso, agora eu estava determinado a ser escritor. Já tinha colocado essa idéia na cabeça e ninguém haveria de mudar o rumo de minha vida.
Sentei-me diante do computador, liguei-o e ele começou a dar uns chiados, ameaçando não ligar o monitor. Dei uns dois tapinhas do lado direito e ele sorriu para mim com aquela luz esverdeada na tela. Feliz da vida, comecei a digitar.
Digitei "casa" e ele "dizia" que estava errado, sublinhando a palavra. Digitei "Casa Grande", pois queria escrever sobre a história do escravo, e ele acusava novo erro. Para meu desespero, o Word sublinhava todas as palavras que eu digitava com uma linha vermelha tracejada. Não entendia que diabo podia ser aquilo, o computador parecia falar a língua de um outro planeta. Fui clicando em cima das palavras sublinhadas e o Word ia mudando as palavras que eu digitava. Escrevia uma coisa e ele queria outra. Fui clicando, escrevendo, clicando novamente... Quando terminei o texto de duas páginas, em estado de total exaustão pelo duelo travado com a máquina, fui ler o que tinha escrito. Não entendia nada... Estava tudo escrito numa língua que não sabia bem se era a língua do computador ou a de algum espírito que dele havia se apoderado naquele momento.
Pensei logo que a culpada de tudo deveria ser Neuza, que não havia me ensinado a digitar direito. Meu texto estava todo modificado, nada do que havia escrito estava na tela esverdeada do meu modesto 486. Ou então era culpa do teclado. Devia haver algo de errado com ele. Teria minha mãe tirado as letras do lugar e, na hora de recolocá-las, não acertou? – pensei. Minha mãe tinha mania de limpeza. Não gostava nada quando ela entrava no meu quarto, pois mudava tudo de lugar e desorganizava tudo. É, podia ter sido minha mãe. Mas não, verifiquei e vi que não era.
Estava intrigado com aquele texto incompreensível. Salvei-o e fui à casa de Neuza. Entrei logo xingando-a sem dó, quase dei aquele murro que tive que guardar, quando ela começou a me ensinar a digitar. Neuza ria de mim, ria como uma louca, o que me deixava ainda mais furioso. Estava inchado e enlouquecido de raiva, já quase partindo para cima da mulher, quando ela disse:

- Você é muito bobo de ficar brigando com o computador! Precisa apenas configurar o editor de texto para operar em "Português", senão vai ter sempre o mesmo problema. A cada vez que clicar na palavra sublinhada em vermelho e aceitar a sugestão do Word, vai transformar seu texto numa salada, se não fizer a devida configuração.

Fiquei vermelho de raiva e voltei para casa envergonhado. Como poderia adivinhar uma coisa daquelas? O "futuro" não poderia ser assim tão complicado. Achei melhor então me matricular num curso sério de computação, com professor especializado, para aprender a lidar com aquela geringonça, que me mais parecia uma máquina de fabricar estresse no usuário. E lá ia meu plano de ser escritor por água abaixo naquela sexta-feira. Achava que poderia ser bem mais simples, que bastava uma inspiração e palavras. Não imaginei um Word entre elas.
O curso ainda não terminou, pretendo fazê-lo até o fim. Mas ainda sofro desta espécie de síndrome que, toda vez que penso em escrever algo, me deixa morto de medo de encarar aquele computador velho e rabugento. Ele venceu. Desisti de ser famoso, desisti de ser escritor. O melhor a fazer agora é "acordar" e procurar um novo emprego de repositor. Afinal, é muito mais fácil e eu posso ganhar meu dinheiro mais depressa.
O sonho, no entanto, não me abandonou de todo. Sonhos, quando bem sonhados, não nos abandonam assim tão facilmente. E, enquanto ele não se legitima, deixo que seja um grande sonho, sem prejuízo da realidade

Um comentário:

Memorial do Inferno disse...

Obrigado amigo... valeu pela publicação do meu conto "Eu e o Word" no seu blog.
Vida longa e muita paz pra você.
Valdeck Almeida de Jesus
Escritor, Poeta e Sonhador
www.galinhapulando.com