segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

PROVA DE AMOR- de Flamarion Silva

PROVA DE AMOR

Tudo aconteceu assim meio por brincadeira. Não pensei que o Lelé fosse levar a coisa a sério. Diziam umas coisas dele, que era matador de aluguel, que já tinha apagado até gente famosa, gente da política.

– Você me ama mesmo, Lelé? Perguntei.

– Pô, se amo! Amo você pra porra! respondeu zangado, uma forma de se mostrar ofendido, não gostava que duvidassem dele.

– Então quero uma prova. E fiz um dengo mentiroso. Por um momento não me dei conta que a coisa era mais grave do que eu pensava.

– O que é? Quer que atravesse Salvador/Mar Grande no braço? Quer que vá a pé daqui até Feira de Santana? Quer que faça uma declaração de amor em público? Porra, essa ia ser foda! ele disse, pra um homem se declarar a uma mulher já é difícil, imagine uma declaração em público... essa ia ser foda!

– Não é nada disso, Lelé, eu disse séria. Sabia da gravidade do que ia lhe falar, por isso fiquei séria pra que ele percebesse que eu não tava brincando.

– Porra, Neném, o que foi? Tá com algum problema? Peraí, disse se afastando um pouco de mim. Não tá prenha de novo, tá?

O Lelé era doido por mim, mas morria de medo que eu pegasse barriga. Ia ser aquele processo de novo. Tomar remédio pra perder. Se não perdesse, tinha de correr pra uma mulher lá de Mussurunga que faz aborto caseiro. Ela já me socorreu duas vezes. Só Cleidiane, minha melhor amiga, ficou sabendo. Isso da primeira vez, que escondi do Lelé. Da Segunda vez o serviço vazou e todo mundo ficou sabendo. O Lelé se retou comigo e disse:

– Não lhe dou uns tapas porque você está de resguardo.

O Lelé era burro nessas coisas. A moça do aborto me disse que tudo bem.

– Você já pode providenciar outro, minha filha, se não quiser ter, venha cá que tiro.

Ela ainda me falou outras coisas. Umas idéias bem legais a respeito da legalização do aborto. Disse que fora do Brasil, em muitos lugares, o aborto é legal. Até falou que na Holanda, se uma pessoa estiver muito doente e quiser morrer logo, pode, isso lá é legal. Ela disse o nome pra esse tipo de morte, mas esqueci. Da próxima vez que eu for lá, pergunto.

– Aqui no Brasil essa burocracia pra tudo, ela disse. Burocracia não sei o que é, mas todo mundo fala e eu também gosto de falar porque é uma palavra difícil. Eu pareço inteligente. Burocracia. Bu-ro-cra-cia. Burocracia.

– Que prenha o que, Lelé. Já não lhe disse que quando emprenhar você vai ser o primeiro a saber. Porra, você é rancoroso hein, não esquece.

– Isso não é ser rancoroso, sua burra, ele me disse. Rancor é quando alguém guarda raiva no coração. Você eu amo, sua besta, ele me disse, assim meio estranho. Não parecia ele, tava muito romântico. Falou com uma voz mansa. Até parecia uma moça falando. Fiquei depois repetindo o tempo todo, imitando ele: – Você eu amo, sua besta, você eu amo você sua besta.

Isso ficou martelando na minha cabeça o dia todo. Parecia música baiana. – Merda! O que é, então? ele perguntou.

– Ah, não sei se você vai topar.

– Topo, disse decidido.

– Mas você nem sabe o que é.


– Diga! disse retado, doido pra saber o que era.

– Você jura que jura que me ama? perguntei.

– Mais que a terra, o céu e o mar. E fez um xis cruzando os indicadores e depois beijou os dedos. Hesitei se devia falar. Talvez fosse só invenção do povo que ele tinha tantos crimes nas costas. Ele pareceu tão doce quando fez o juramento. Fiquei calada, só olhando nos olhos dele.

– Porra, Neném, diga logo de uma vez o que quer que eu faça para provar o meu amor.
Então eu disse de uma vez:

– Quero que mate uma pessoa. O Osvaldo, marido de minha mãe. Ele bate nela, toma o dinheiro dela e, ainda por cima... ainda por cima ele quer me comer.

– Aquele filho da puta! Lelé disse, triturando os dentes de raiva. Mato de graça! Nem precisava jurar nada. Filho da puta!

– Calma, Lelé, calma. A gente tem de pensar bem como fazer. Minha mãe não pode ficar sabendo. O que vai lhe parecer um mal, só vai ser um bem.

– Claro! Claro! Aquele corno! Querer comer mulher minha... Sacripanta!

– E então, tem alguma idéia de como fazer? perguntei.

– É na bala! Na bala! O Osvaldo é muito forte, encarar de peito aberto não vai dar.

Primeiro dou um tiro na perna, e, depois, já pau-a-pau comigo, dou umas porradas; por fim descarrego meu 38 naquela cabeça de merda.

– E se você errar o tiro e ele conseguir tirar o revólver de sua mão?

– Porra, é uma hipótese, é uma hipótese. Vou Ter de atirar no peito e, depois, então, descarrego na cabeça. Tomara que ele fique acordado para sentir a mijada que vou dar na cara dele.

Depois de tudo acertado, a gente se beijou. O Lelé disse que queria me comer. Me comeu ali mesmo, no meio da rua. Levantou um pouco minha saia, rasgou minha calcinha com raiva e me comeu, ali mesmo, no meio da rua, encostados numa Parati verde.
Dois dias depois encontraram um corpo na ribanceira da Estrada Velha do Aeroporto. Era o corpo de Osvaldo. Só identificaram que era ele por causa do anel com pedra vermelha no dedo médio. Minha mãe já havia informado do sumiço na 13ª DP. Os policiais foram lá em casa buscar mainha para reconhecer o corpo. A coitada desmaiou quando viu o anel. A cara do Osvaldo esfacelada.

– A cara esfacelada, disse o delegado mostrando o corpo.

Mainha olhou e não reconheceu o Osvaldo, mas logo viu o anel e desmaiou. Quando acordou fez aquele drama. Minha mãe era louca por Osvaldo. Chorou, gritou, e na hora do enterro no cemitério da Baixa de Quintas, berrou para que todo mundo ouvisse que ela queria ser enterrada com ele.

Uma histeria. Deu vontade de dar uns tapas na cara dela, só para se acalmar. Até hoje, um ano e dois meses depois, fala do Osvaldo com saudade. Lamenta e chora pela sorte do meu irmão recém-nascido.

– Tão novinho e já órfão, diz ela colocando Osvaldo Júnior pra mamar no peito. Ele nem sabia que ia ser pai. Ia amar tanto se soubesse, ela fica dizendo com uns olhos perdidos.

Minha opinião, você já sabe, é outra. Dependesse de mim, ela ia lá em Mussurunga e tirava o menino. Pra que deixar vir ao mundo mais um pra passar fome, pra ficar na rua cheirando cola, roubando, matando? Melhor não vir. O Lelé é que tá certo quando diz:

– Neném, pobre parir é igual a epidemia: quanto mais pare mais a doença aumenta.”

Mas tudo isso não me importa agora, importa é que o Lelé provou que me ama de verdade. Daqui a pouco ele vem me buscar, a gente vai no cinema, no shopping. Ele disse que tá passando um filme porreta. Tomara que seja de amor. Ando tão romântica esses dias... até pareço uma besta.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O BOÇAL- de Carlos Vilarinho

Desde menino me achava cretino. A rima não é proposital, mesmo sendo eu um poeta de largas proporções. Quando adolescente li num livro de filosofia que o homem é preguiçoso porque não tem vontade de potência. E que tinha que se render às massas. Acho as massas repugnantes, a não ser que seja um macarrão italiano à bolognesa. No entanto e como de roldão dentro de mim e dos meus sonhos, aprendi por osmose, como já disse, a fazer as coisas sem muito afinco e honestidade. Não sei por que, mas isso me direcionava às outras pessoas que empiricamente, eu acho, solicitavam meu trabalho. Percebi de imediato com a minha cretinice que poderia levar vantagem sobre quem quisesse simplesmente investigando para depois devassar o discurso alheio. Como já disse me achava um poeta em largas proporções. Então me orgulhava de devorar os livros e os textos que eu mesmo procurava. Ou caíam em minha mão. Ou ouvia alguém culto e inteligente comentar num banco da praça.

Resolvi então que seria o homem mais culto e inteligente de toda a eternidade. Um sonho no reboco de outros sonhos. Fui aprovado num curso de Filosofia. Dessa forma então segui a vida, lendo o rosto das pessoas. Uma vez li no rosto de uma colega de curso o seu desespero por causa de uma prova de um professor maldito e tirano. Havia eu então o flagrado em atitude homossexual com um colega rival meu de conhecimento. Dele, do colega rival, já desconfiava, mas do professor não. Chantageei, sobretudo o professor pederasta. Para se ver livre de mim, deixou-se ser usurpado vorazmente por toda a obra de Shakespeare. Além da prova do semestre. O pederasta era casado com outra professora sargenta do curso de Filosofia. Não tinha necessidade daquilo, mas lembrei-me da colega desesperada e seu corpo tremendo sob o meu em minha imaginação tratante e velhaca. Dei a prova em troca de sexo oral nos fundos da faculdade onde se reunia a turma da maconha, dentre eles o namorado dela, claro ele não estava lá. Depois de formado corrompi meia-dúzia de pessoas estancando-lhes a ferida com o meu dedo. E assim fui ensinar na faculdade onde estudei e por si só era um antro de permissividade ambulante. Depois do professor pederasta, teve a diretora do campus universitário e chefa de departamento de estudos Kantianos. Num juízo puramente analítico e, note-se a ironia, kantiano. Descobri que a tal professora emprenhava urnas de eleições departamentais e assim continuava no poder após dezoito anos. O meu faro e minha facilidade em descobrir falhas e falcatruas alheias, sem titubear na dúvida me levou a espioná-la e levantar dados para conseguir o meu intento. As urnas já vinham emprenhadas. Consegui essa informação de um agente mercenário que não estava nem aí para o desenvolvimento da ciência, muito menos para o bom andamento de um processo político e eleitoral de uma Universidade, tinha no entanto uma demência súbita estampada no rosto. Aquele venal agente não sei de que, vendeu a informação por uns míseros mil e quinhentos reais, meu computador de tela LCD e a impressora. Topei porque sabia que meu lucro seria bem maior do que aquele. E em três meses fui nomeado professor titular de Filosofia Socrática. Para mim foi muito bom, tinha afinidades com os sofistas e nunca entendi porque o idiota do Sócrates não pegou suas tralhas e foi embora de Atenas. Mesmo vivendo assim num pré-fatalismo quase que absoluto, não achava a vida uma porcaria. Queria viver e para isso tinha que contar com os meu dotes cretinos, devassos e desprezíveis. Essa era minha condição e meu pensamento sobre a humanidade. Dessa forma jamais vivi aferroado ao cristo redentor ou a qualquer virgem. Nem a santo, nem orixá. Uma vez me apareceu na frente um homem de chapéu, lá pela madrugada. Estava curtindo o dinheiro que havia extorquido de um adúltero vizinho. Quem mantinha a casa e os vícios do desgraçado era a mulher que com ele se casou. Não teve o que fazer e arranjou um rapariga na rua. Tirava de casa, da mulher que sustentava seus vícios imundos, e dava à cadela. Mudei o itinerário do dinheiro uma vez só, quando o vi e fiz questão de flagrar dentro do carro da esposa fazendo sexo anal com a empresária da volúpia. Então o homem do chapéu disse:

_Isso são horas de passear rapaz?

_Interessa?

_Sabe quem eu sou?

_Não sei e não quero saber...

_Um dia venho buscar sua tripas.

Virou as costas e sumiu andando na treva da madrugada. Eu continuei minha farra. Senti um calafrio, mas logo em seguida tomado pelo prazer do álcool, segui em frente enamorando-me com uma mulher que repentinamente apareceu ao meu lado de braços e abraços.

Nunca deixei de pensar em reviver novamente Cervantes, haveria de ser um ser pensante que revolucionaria o mundo com o meu pensamento prático e metafórico ao mesmo tempo. De vez em quando sentia um pequenino remorso, mas mente fraca não toma conta de mim. Às vezes também vinha em minha mente uma questão de Rainer Maria Rilke “Que farás tu, meu Deus? O medo me domina”.

_Que foi? Tá assustado?

_Claro que não, minha filha.

Tive vontade de perguntar quem era aquela mulher ali, mas algo penetrava em minha mente vadia que simplesmente começava a beijar-lhe. E ela retribuía os beijos num frisson delicioso. Mesmo assim dava-me náuseas cada vez que me beijava e volvia a cabeça de um lado a outro, tornando-se assim uma beijoqueira deliciosa e estúpida. Claro que eu merecia coisa melhor. De qualquer sexo. Mas ali curtindo aquele júbilo indecente, conseguido com a extorsão de alma alheia sentia uma felicidade breve e clandestina, com a licença do arremedo de um livro clariceano. No outro dia a ressaca era miserável e uma angústia infernal e diabólica que se apoderava de mim a cada minuto, como se a minha vida estivesse sendo guardada para um momento explosivo que jamais chegaria.

Alinhei-me às tendências que apareciam na Universidade. Os estudantes sempre trazem coisas novas e a minha mente vorticista, veloz e lépida como a de um grande pensador e senhor da comoção, mesmo que seja a comoção alheia e sofrida, colocou-me em voga dentro de um mundo de intelectuais, aliás, pseudo intelectuais, todos abaixo de mim e assim cravei meus fundilhos na cadeira de estilo vitoriana que compunha a diretoria. Em tempos conheci um rapaz. Magro e macilento. Tinha as mãos grandes e rígidas, contornadas por veias aparentes. Trazia no rosto o desconforto do desconhecimento e avidez pelo mundo acadêmico. Vi de longe durante a matrícula. Tive compaixão pelo semblante pueril e miserável, então um sopro maledicente roçou minha nuca. Fiz questão de ser o professor orientador daquela turma, assim tinha espasmos de superioridade que não me aquietavam, pelo contrário deixavam-me sempre em elevação e em contato com algo inatingível.

Quando Pedro vinha a minha sala dizia-lhe verdades doces. Escondia a minha violência natural e entrelinhas. Maltratava-o fazendo acreditar que eu era o Deus que o faria levitar entre conhecimentos proibidos. De qualquer forma e com o passar dos tempos fui sentindo algo de gigantesco em Pedro. Algo familiar que já houvera passado por mim. Perguntei-lhe once more se ele me amava como Jesus amava Pedro. E então, na resposta senti pela primeira vez um certo pavor.

_Claro que sim. Vou amá-lo até sua última gota...

Havia passado dois anos desde que o vi ingênuo, fútil e frívolo na fila da matrícula. Percebi com o tempo a sua evolução. Muito maior do que os outros. Concedi parabéns a mim mesmo, sabia que aquela genialidade infante, crescente e diabólica devia a mim e a minha natureza perversa e boçal. No entanto e com esses tempos o olhar de Pedro, sobretudo quando punha sobre mim mesmo, tinha algo de visceral e sanguinolento. Durante esses mesmos tempos pus-me a recolher-me mais cedo em casa. Uma vez ou outra Pedro aparecia, fitava-me de cima e baixo com uma fome carnal que me deixava encabulado. Mas eu era superior, ao menos achava isso, e mesmo com uma apreensão a um malogro que não sabia nem tinha idéia de onde vinha me impunha e perguntava-lhe.

_O que deseja, Pedro?

_Nada professor... Estava de passagem aqui por perto e vim te ver... O senhor mesmo
disse para que eu sempre aparecesse...

_Claro, claro... Vou passar um café.

Pedro então se sentava na poltrona e com ar aborrecido, sorvia o pretume sem açúcar.

_Ai, ai, meu bom professor...

_O que Pedro...

Sentia o olhar dele pousado em minhas costas, sentia arrepio voluptuoso e deitava. Pedro terminava o café, roubava meus cigarros e ia embora. Instalava-se em meus sonhos e em minha cama. Furtava minha alma. Foi então, depois de mais alguns meses que vi Pedro com a mesma garota que divertiu-se comigo quando extorqui o adúltero. Jamais entendi como ela apareceu repentinamente aos meus braços. Reconheci imediatamente. A imagem daquela garota não havia sumido do meu inconsciente conscientemente coletivo. Talvez tenha trazido de lá mesmo, das entranhas da memória pré-histórica e cíclica. Um psicológico cheio de anima. As idéias e as imagens convergiram-se e ao mesmo tempo outras línguas vieram para dentro de mim. Em instantes minha alma saiu e de fora em forma de energia cósmica, mas turva, vi o escarnecimento de um boçal. Sua gargalhada infernal escorrendo e ecoando no rio Letes. Era a mesma garota, o mesmo cabelo, não havia passado o tempo para ela. Os dois num romance arrogante e altivo. Aquele amor presente, perverso e carnal, condenado e abençoado por Satanás é que me acentuava a dúvida. Já não cria em Pedro, ao contrário de Jesus. Tinha medo. Eles sorriam como Antístenes e meu estomago embrulhava. Eles dançavam numa noite vazia, como eu dancei com ela mesma. Eles riam embriagados como eu estava naquele dia. No instante em que se virou de costas para dançar a valsa dos mortos eu ouvi...

“Ergam todos os copos
Vamos brindar
Aos mortos
Um brinde aos mortos!
Um brinde a você

Tragam todos os corpos
Vamos ressuscitar
Os mortos
Pra beber com os tortos
Beber até vomitar”

...e vi o sujeito da noite... E ele perguntou novamente;

_Isso são horas de passear, rapaz?

Uma dor lancinante estraçalhou minhas tripas e sangrei até a última gota. Quando o pingo rubro em três segundos juntou-se ao mar de vômito vermelho, Pedro e a garota algemaram minha alma e fecharam a porta da escuridão.

Conto do livro VELHO que será lançado em 2009.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

ESTA MOEDA NÃO VALE NADA- de Mayrant Gallo

Era o tempo em que as crianças paravam diante das vitrines das lojas e admiravam os brinquedos. As pobres, digo, pois às ricas bastava pensar neles, que na noite de Natal apareciam ao pé das árvores, no canto da sala, como num passe de mágica.
Naquela manhã, como se estivesse diante de uma autoridade, o menino tirou o boné e ficou olhando a vitrine. Não havia criança que não parasse ali. Mesmo que suas mães as puxassem com força e impaciência, uma olhadela ao menos elas destinavam àquele mundo de carrinhos, bonecas, casas, bichos, trens, soldados e bailarinas, tudo em miniatura, e de uma delicadeza ímpar e cores berrantes que atraíam as crianças desde o primeiro olhar, ainda longe, do outro lado da rua. E muito mais aquele menino, tão calado e tão só com sua mãe doente. Ele enfiou a mão no bolso e pescou uma moeda. Entrou na loja, ainda vazia.

“Moço”, disse, tímido, “de quantas moedas como essa preciso para comprar aquele caminhão de bombeiro?”

O homem recolheu a moeda de cima do balcão e a examinou.

“Esta moeda não vale nada. É dinheiro antigo.”

O homem foi à caixa registradora e voltou. Largou uma moeda no balcão, pesada e luminosa: “Você precisa de trinta desta aqui”. O menino a pegou, mal cabia em sua mãozinha. Jamais tinha visto aquela moeda. Seus olhinhos brilharam, e ele mordeu o lábio, certo de que jamais conseguiria juntar tantas daquela. Largou-a então sobre a madeira negra e foi saindo, sem se despedir do homem.

“Ei!”.

O menino se voltou, cabeça baixa, olhar de desânimo.

“Me traga vinte e nove iguais a essa, e o caminhão será seu”, disse o homem.

Naquela noite, quando levou o chá para a mãe, no quarto, o menino perguntou se ela não tinha uma moeda para lhe dar. Ela simplesmente disse que não, que todo o dinheiro que tinham era para comer, e nem poderia garantir que durasse até o Natal.
“Se pelo menos seu pai nos mandasse algum dinheiro...”

No dia seguinte, o menino foi à escola pegar seu boletim e avisar que sua mãe, porque estava doente, não ia comparecer à festa de Natal, e que ele também não iria, pois precisava cuidar da mãe. Depois, reuniu-se com alguns colegas no pátio da escola e tirou de dentro de um saco um dos seus tesouros pessoais, que mostrou a todos: o esqueleto de um gatinho. Um dos filhotes de Dália, a gata de sua mãe, que morrera atropelada no verão anterior. Desde os seis anos que ele guardava aquele esqueleto. Obteve três moedas com ele.

Até o fim do dia conseguiu reunir oito moedas. Mas parou por aí, e por vários dias não conseguiu mais nada. E o Natal estava próximo, e dos quatro caminhões de bombeiro que havia inicialmente na vitrine só restavam dois. Começou a sentir medo, tanto de perder as moedas como de não arrumar mais nenhuma. Felizmente conseguiu fazer alguns trabalhos na vizinhança, e a três dias do Natal seu bolso portava dezenove moedas. Com mais dez, e se o homem da loja cumprisse o que prometera, o caminhão era seu. Na véspera do Natal, a vizinha, dona Laura, o chamou por sobre a cerca e perguntou como ia sua mãe.

“Melhor”, ele disse, sem disfarçar o tom de tristeza.

Então a mulher, para que ele ficasse mais feliz, falou que, se ele fosse à mercearia comprar-lhe alguns mantimentos, ela lhe daria três moedas.

“Quatro”, o menino negociou.

A caminho da mercearia, parou diante da loja e viu que só restava um caminhão. O último. Ficou olhando, abatido. Nisso, um homem que vinha claudicando pela calçada, a varrer o ar com a bengala, parou ao lado do menino e também ficou olhando os brinquedos.

“O que você está olhando, menino?”

“O caminhãozinho.”

“Você gosta dele?”
“Claro!”

O homem ficou em silêncio, como se pensasse. Depois disse:
“Então fecha os olhos e me diga como ele é. Quero saber se você realmente gostou dele...”

O menino fez o que o homem pediu, como se fosse ele, e não outra pessoa, o criador daquele brinquedo. Mencionou, de olhos fechados, cada detalhe, dos mais importantes aos mais simples. Depois pediu desculpas ao homem e disse que precisava ir.
À tarde, faltavam apenas quatro moedas, mas a mãe o chamou no quarto e perguntou se ele tinha algum dinheiro:
“Soube por dona Laura que você andou fazendo alguns serviços para os vizinhos...”

O menino hesitou um momento, mas foi ao seu quarto e voltou com um saquinho de camurça, cheio de suas moedas. Deu-as todas à mãe, que afinal, depois de mais de um mês de cama, lavantou-se e se arrumou, ficando tão bonita quanto antes de adoecer, quase parecendo aquela bela jovem que ele sempre apreciava no álbum de fotografias ao lado de seu pai.
“Vamos ao Centro comprar alguma coisa para a nossa ceia de Natal. Não podemos mais esperar por seu pai.”

Na volta, o menino se desprendeu da mão da mãe e foi apreciar o caminhão de bombeiro, na vitrine. Todavia, o último que ele vira pela manhã não estava mais lá.

A noite de Natal foi tão melancólica quanto o dia em que seus avós morreram. O menino comia sem vontade, sua mãe também. E não havia árvore de Natal, nenhuma música, ninguém mais na escura sala de paredes sujas e móveis poeirentos. Até que perto da meia-noite bateram à porta. Não encontrou ninguém, mas na soleira tinham deixado uma caixa, embrulhada em papel colorido. Ele a abriu, ávido, já intuindo o que seria. A mãe, às suas costas, disse que ele não deveria aceitar presentes de estranhos. Então o menino olhou para o outro lado da rua e viu o homem, que, ao ser descoberto, começou a andar rápido, auxiliado por sua bengala.

“Foi ele!’, o menino disse e apontou o vulto que se esgueirava rente às paredes das casas.

“Não pode ser”, a mãe disse, “ele é cego e muito mais pobre que nós: veja as roupas maltrapilhas...”

“Cego?”, o menino se espantou.

“Sim, veja a bengala. Sem a bengala, ele não anda.”
Dentro da caixa, o menino ainda encontrou aquela primeira moeda, pesada e luminosa.


Mayrant Gallo publicou O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003).
Conto publicado no Correio da Bahia, em 24/12/2006.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

PAPAI NOEL PEDÓFILO- DE Elieser César

1

A menina foi a primeira a ver a cena. Fora com os pais ao shopping center, decorado com uma grande árvore de natal e outros motivos natalinos, comprar, não uma boneca, como faziam as meninas da geração de sua mãe, mas um aparelho celular bacana, desses de última geração que muita gente, mais acostumada ao telefone fixo, não sabe usar direito. Tão logo entrou no shopping, onde planejava comer um desses hambúrgueres duplos, com batatas fritas e refrigerante, se deparou com a confusão formada.

_Painho!Olhe, painho! Tão batendo em Papai Noel.

De fato, o bom velhinho estava caído no chão e recebia pontapés de alguns homens indignados e incentivados por duas mulheres que repetiam: “cachorro”, “safado”. Já sem o gorro vermelho e branco, com a barba postiça pendurada ao pescoço por um elástico e um filete de sangue a escorrer-lhe pelo canto da boca, o homem vestido de Papai Noel tentava proteger a cabeça com as mãos, enquanto recebia uma saraivada de chutes, na barriga, nas costelas, nas pernas e nos braços.

_Filho da puta! – vociferava um agressor.
_Canalha! - rugia outro.
_Tarado! - emendava uma das mulheres que estimulavam à sova.

Uma pequena multidão, entre indiferente e cúmplice, acompanhava o início de um ato que poderia terminar em linchamento. Um ladrão, que entrara no shopping na esperança de engordar o seu Natal, aproveitou a confusão para surrupiar a carteira de cédulas de um senhor de paletó e gravata. No chão, o homem tentava se defender como podia, enquanto suplicava:

_Parem! Eu não fiz nada. Pelo amor de Deus, parem!

Os pontapés prosseguiam. Um homem, espadaúdo e de cabelos grisalhos, espumava:

- Como não fez nada?! Como não fez nada, animal?!

Um rapaz e uma moça tentaram intervir, dizendo que não se devia bater num homem idoso e ainda mais caído e indefeso.

- Bater é pouco – disse um homem calvo, de mãos dadas com uma mulher mais pintada do que uma aquarela - Deviam matar. É pedófilo!

Temendo o tumulto, os pais da menina resolveram voltar para a casa, levando a criança que chorava lamentando o celular adiado.

Devido aos maus-tratos e a idade avançada, Papai Noel poderia ter morrido, não fossem os seguranças do shopping que o salvaram dos agressores e o entregaram à polícia.
_Dizem que é pedófilo e que tentava abusar de uma menininha – informou um dos
seguranças.
_Pedófilo, hein? Deixe com a gente – respondeu um dos policiais.

Foi, então, que o jovem casal que tentou intervir a favor do homem espancado ficou sabendo que um dos agressores, justamente o que espumava pelos cantos da boca, começará a confusão. Chegara ao shopping com a mulher, uma das mulheres que incentivavam as porradas e a filha pequena. A menina ficou encantada com a decoração que remetia à uma lugar distante e frio que vira num desenho animado da televisão. Ao ver o Papai Noel, gordo, bonachão e rodeado de crianças sorridentes, deu uns passinhos indecisos em direção ao bom velhinho. O homem idoso de vermelho estendeu-lhe os braços, soltando um gutural “hohohôôôôô...” . A mãe da menina tirou uma câmera digital da bolsa e colocou a filha no colo de Papai Noel. O velhinho, que até aquele momento era um bom velhinho, alisava, sorridente, a cabeça da garotinha, que batia palmas de contentamento.

Então, sobreveio o desastre.
_Animal! Filho da puta! - gritou o pai da menina e em seguida a tirou do colo de um
Papai Noel atônito.
- O que foi? O que foi, meu bem? - perguntou a mãe da menina.

Já com os olhos injetados de cólera, o pai da criança levantou o bom velhinho do trenó puxado por dois alces de fibra sintética e deu-lhe uma bofetada no rosto, que se contraiu num espasmo.

- Ele estava bolinando minha filhinha. Este corno descarado estava bolinando minha
filhinha. Acusou.
- Tem certeza ? - perguntou a outra mulher que iria estimular a agressão.
- Se tenho? Eu vi. Veja o volume na calça do safado.
- Mas, ele está de bombacha – apontou a funcionária de uma ótica.
_Bombacha é outra bolacha na venta deste miserável. Aliás, bolacha, não, porque, em homem, a gente dá é murro, mesmo - respondeu o papai da menina.

E, de pronto, desferiu um soco no homem que segurava pela gola da casaca vermelha, derrubando-o no chão.
_Tarado!
_Pedófilo!
_Velho safado!
_Depravado!

Os xingamentos vinham de todos os lados. Em seguida, começaram as agressões, só contidas pelos seguranças do shopping.

2

Ainda com os trajes de Papai Noel, ensagüentado, gemendo e mancando, o homem chegou à delegacia de polícia. No trajeto levara umas bordoadas extras, no camburão da PM e ouvira a ameaça de que de madrugada, na cadeia, os policiais lhe arrancariam os ovos para pendurá-los na árvore de Natal clandestina mantida num porão da Casa de Detenção.

O delegado, um jovem advogado recém-nomeado, se recusou a receber um preso com marcas de espancamento, e ordenou que ele fosse submetido ao exame de corpo de delito e, sob escolta policial, encaminhado ao Hospital Geral do Estado.

De posse do nome e endereço do homem, determinou uma diligência policial na casa do suspeito; uma casa simples, em Plataforma, mas muito bem cuidada, para quem mora sozinho e sobrevive de uma pequena aposentadoria, como descobriria mais tarde o delegado. Que, logo, também ficaria sabendo que o Papai Noel do Anti-Cristo, como o chefe do Serviço de Investigação Policial apelidara o homem idoso, era pintor. Não pintor de paredes, como à primeira vista se poderia supor de um homem pobre, mas pintor de quadros, que expunha numa pequena galeria do Pelourinho, para chamar a atenção dos turistas. Entre as pinturas, de um estilo apressado, amadorístico e repetitivo, havia marinas, mulatas de ancas avantajadas, seios fartos e bunda majestosa, sobrados, igrejas e naturezas mortas, uma panorâmica da Feira de São Joaquim, as antigas lavadeiras da Lagoa do Abaeté, os orixás do Dique do Tororó e um quadro que convenceu alguns policiais da culpa do Papai Noel: a estampa de um Menino Jesus pelado e com o pinto celestial à mostra, fazendo pipi nas vestes de Santo Antônio que, impassível, mantém o semblante voltado para o céu. Pronto! Era a prova cabal contra o degenerado, que nem a religião respeitava e passava por cima da mais cara tradição cristã, para se vestir de Papai Noel e satisfazer seus instintos mais baixos. Foi o que pensou a escrivã de polícia, católica praticante que não perdia a missa do domingo.

Não foi o que pensou o delegado, inclinado a acreditar que não havia má fé na pintura sacro-profana,mas, a inequívoca expressão de licença poética manifestada por um artista do povo. Considerou a gravura até realista, pois, não seria bem plausível que, naquela época longínqua, na Galiléia ou em outras paragens bíblicas, muitas crianças andassem peladas, por falta do que vestir, como muitos meninos e meninas do sertão? Também o Menino Jesus não nascera pobre, numa manjedoura e, ainda por cima, com os pais fugindo do infanticídio determinado pelo Rei Herodes?

Após essas elucubrações e, como ninguém, sequer o pai da menina (quem sabe satisfeito com a surra aplicada?) se apresentou para registrar queixa, o delegado decidiu não instaurar inquérito policial. Inocente ou culpado, o homem já tomara as cacetadas dele e porrada dada ninguém tira. Que ficasse em paz e nunca mais fosse se vestir de Papai Noel.

3

Três semanas depois de chegar ao hospital, ele recebeu alta. Neste período, apenas uma pessoa foi visitá-lo. Queria comprar o quadro do Menino Jesus fazendo xixi em Santo Antônio. Acertaram o preço – quatro vezes o valor da aposentadoria do convalescente – e fecharam negócio. Logo em seguida, o paciente foi mandado para casa. Como chegara apenas com os trajes de Papai Noel e, por ora, vestia o camisolão do hospital, pediu à uma enfermeira por quem se afeiçoara e era retribuído na afeição, que comprasse uma calça, uma camisa e sapatos.

Ainda mancando, com a respiração ofegante, em decorrência dos pontapés que levara à altura dos pulmões; o braço direito engessado e um olho com a visão comprometida, deixou o leito hospitalar. Ninguém foi buscá-lo, até porque não tinha ninguém mesmo. Caminhando trôpego pelos corredores do hospital, passou pela sala de enfermagem, com os olhos voltados para o chão. A enfermeira amiga o chamou pelo nome. Ele se virou, prestativo. Muito ocupada com as anotações de um prontuário médico, ela acenou-lhe um adeus. Ele tentou forçar um sorriso, mesmo sabendo que havia perdido alguns dentes frontais. E ela disse, por fim:
_Feliz natal!


*Elieser César é Jornalista, escritor e mestre em Letras pela UFBa, autor de “O Azar do Goleiro” (Contexto, 1989) e “A Garota do outdoor e outros contos (Funceb-EGBA, 2006), dentre outros livros.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

AO MEU PAI ÉDSON BATISTA DA SILVA, COM CARINHO.-de Andreia Donadon Leal

No ano de 2008, no Estádio Raimundo Edson da Costa, A Secretaria Municipal do Governo e Esporte do Município de Santa Bárbara, outorgou Medalhas de Honra ao Mérito aos Grandes Esportistas dessa cidade mineira, nos anos de Glória de Futebol. Santa Bárbara também gerou grandes atletas que ao longo dos anos colocaram a cidade tricentenária no cenário do futebol mineiro. Merecem destaque os irmãos Baptista futebolistas: Maurício, Gemada, Tição, Didi Jacaré e outros grandes expoentes do futebol santa-barbarense.

Edson Batista da Silva, mais conhecido como DIDI JACARÉ, trabalhou na MIP nas décadas de 60 a 83 e foi Secretário de Gabinete e Financeiro da Prefeitura Municipal de Santa Bárbara até meados dos anos 90. Um dos contemplados com a Medalha de Honra ao Mérito aos “Grandes Esportistas” pela promoção do Futebol santa-barbarense nos anos de 1955 até 1980. Foi zagueiro e meio campo no Time União Esporte Clube, Atlético e Aliado.

Aí vai minha pieguice e sentimento de amor incondicional pela figura desse homem tão especial: meu pai, de quatros irmãos, pai dos irmãos, pai dos filhos dos filhos... Talvez seja fácil para uma filha elogiar ou poetar sobre o pai, simplesmente pelo sentimento paternal ou sangüíneo. Talvez e quem sabe seja puxa-saquismo mesmo dizer que ele foi o melhor pai do mundo e representação de segurança. Lembra pai, quando chegava da universidade, em tempos de chuva ou em tempo estiado, lá pelas zero hora e trinta minutos, de Mariana a Santa Bárbara, todos os dias, 75 km de estrada de pó, poeira e nos meses de quaresmeiras, 4 anos consecutivos, e você sempre na janela esperando a Kombi me deixar na porta de casa. Deixava as luzes das escadas acesas, por que sempre tive medo do escuro... Ao subir vagarosamente os topes, sua figura aparecia abrindo a porta de casa para mim. Esse ato é a representação de segurança que um pai passa ao filho: duas trancas na porta depois que eu retornava ao lar, em segurança, escutando você fechar a porta. Mais um dia se encerrava. Mais um dia de trabalho, mais um dia de estudos. Lembra quantas vezes me levou de carro para a escola? Não foram algumas, foi o tempo em que estudei e trabalhei. E o café passado todas as manhãs? Lembrei também que o senhor me acordava todos os dias. Uma batidinha discreta na porta do quarto e um pigarro:

- Andréia?

Uma pergunta que eu respondia meio sonolenta:

- Hum? Despertava.

Hoje todos os filhos estão formados, pai. Eu, escritora e artista plástica, um pedaço de você. Não são minhas mãos que pintam a tela, são nossas mãos, minhas e as suas. Não é minha inspiração que transcreve versos ou prosas para o papel, são nossas inspirações. Somos continuidade de nossa mãe e sua. Você poderia ter sido um grande escritor, poderia ter sido um grande artista plástico, mas escolheu ser um Grande Pai mesclado com alguns traços de médico, advogado, prefeito, segurança, professor, poeta, administrador e artista. Um ser metonímico e completo, um grande homem. Falar que amamos você seria repetir o que já sabe. Nosso carinho, preocupação e amor são estupidamente visíveis, escancarados. Somos até meio “babões” e no exagero um pouco pai de você também. Um quinteto quase perfeito, somos humanos e não estamos isentos dos defeitos inerentes a raça. Ninguém está pai... Ninguém! Esse ano não quero festejar o natal com luzes, enfeites e glamour. Jesus nasceu em berço de palha e viveu sem luxo, com tão pouco que ainda soube dividir o que tinha. “Viveu sem ter quase nada: do berço de palha a cruz”. (Gabriel Bicalho)

Quero que você drible as intempéries que surgiram, como numa partida de futebol, com o peito inclinado, pernas e braços fortalecidos, correndo pelos tapetes da vida. Bola na rede, pai, você é um grande homem! Nessa partida, você está com um paredão de um quinteto de filhos quase perfeitos, uma porção de netos, irmãos e muitas pessoas que ficarão na defesa ou até mesmo no ataque.

- Espero você no Natal na Rua Maria Carolina, casa de número 208, centro, Santa Bárbara – MG, e nos dias em que estiver em casa para fechar e passar duas trancas na porta depois que eu chegar... Depois que eu chegar...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

PRECISAMOS CONSTRUIR UM NOVO ATLAS- de Jackson Vasconcelos

O Fábio Gomes é Diretor-Proprietário do Instituto Informa de Pesquisas. Um craque! É alguém que vale a pena conhecer. Eu o trago para nossa conversa de hoje, em razão de uma indicação de leitura que me fez ele: “O Atlas da Exclusão Social no Brasil”, coletânea organizada em cinco volumes pelos economistas Márcio Pochmann, hoje presidente do IPEA e Ricardo Amorim, autor de outro livro “Classe Média, Desenvolvimento e Crise”, de também aconselhável leitura.


O primeiro volume da obra alinha os mais de cinco mil municípios brasileiros, do menos excludente para o mais excludente. Lá está demonstrado que 41,6% das cidades do Brasil apresentam os piores resultados e quase todas elas estão localizadas nas regiões Norte e Nordeste.


Na introdução ao ranking os organizadores da obra afirmam que é inevitável a sensação de urgência no enfrentamento de questões tão antigas, quanto contemporâneas. Estão certos! Dizem também que “para alterar a configuração geo-econômica do Brasil é preciso enfrentar e eliminar velhas práticas políticas e implementar ações sociais que resgatem a cidadania da população excluída, dando-lhe as condições para sua emancipação econômica”. Mais do que certos, se a inserção social não for tão simplesmente um resultado da emancipação econômica. Os educacionistas acreditam que não é. E, estão certos.


A educação não é um processo de mero acúmulo de informações e de leituras e, por isso, não se pode dizer que os economicamente emancipados estão definitivamente educados, porque a educação é mais do que isso e insere virtudes morais.


Educação é o processo de desenvolvimento físico, moral e intelectual de uma pessoa, de um grupo, de um povo. Um conceito que autorizou a edificação da palavra “educacionismo”, com todo o peso que tem o verbo edificar. O formulador é o Senador Cristovam Buarque, que tem a preocupação permanente de ampliar o conceito de desenvolvimento a partir da ampliação do conceito de educação. “O educacionismo”, diz ele, “é mais do que um programa educacional, é uma ideologia que centra o progresso e a utopia em uma revolução pela educação. Na visão tradicional, a educação é um serviço; no educacionismo, é um instrumento de construção e transformação social: é o vetor civilizatório”.


Cristovam, portanto, insere virtude moral no conceito exclusivamente operacional que tem, para os governos e para muita gente, a educação.


Neste contexto, surgem os exemplos de virtude moral oferecidos pela mãe Brandila e pelo avô Daniel Manoel da Silva, a um povo, que deles tem muita carência. Brandila e Daniel, o são sem o saber, educacionistas, apesar de possuírem pouca formação tradicional.


Dona Brandila é mãe de Rogério Longen, indivíduo que foi flagrado no roubo de donativos destinados às vítimas das calamidades catarinenses. O gesto do filho lhe causou vergonha e a sua vergonha produziu a frase. “Foi esse o filho que criei?”


O avô Daniel Manoel da Silva perdeu, no mesmo instante, quatro netos e um filho em razão das enchentes. Recebeu alguns donativos e entre eles lhe veio um casaco de pele, que trouxe, num dos bolsos, por esquecimento do primeiro proprietário, R$ 20.000,00. Daniel, imediatamente, os devolveu ao dono que ele não conhece. Com a devolução, seguiu a frase “Não é certo usar o que não é seu”, que sintetiza, talvez sem a intenção do autor, os motivos que empobrecem em dinheiro e virtude, todo o povo Brasileiro.


Os exemplos produzidos por Dona Brandila e seu Daniel me fizeram perceber que nos falta um “Atlas” de inserção moral, que, por enquanto seria um trabalho de poucas páginas, situação que os resultados do educacionismo poderia transformar para encher muitas estantes.

Jackson Vasconcelos é cronista político desse blog.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A ESTRELA BRILHOU- de Carlos Soares Oliveira

A estrela brilhou no oriente!
Anunciem a toda a gente
que é uma estrela diferente
tão brilhante, soberana e altiva
que todos podem vê-la.
Vamos seguir a estrela.
É a estrela de um Deus-menino
de um menino-Deus.
É o brilho de um rei manso, sem espadas
que vem irmanar, igualar
carregar pecados e dores e ainda perdoar.
Rendam homenagens do oriente ao ocidente
tragam perfume e incenso
para celebrar o brilho intenso da estrela.
E ainda que outros reis não queiram,
é a força de um Deus...
ninguém pode detê-la!

Carlos Soares de Oliveira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

É COR E MÚSICA- de Camila Vilarinho

Cabem todas as músicas, nessa hora.
Cabem todas as cores, nessa hora.
Sem demora.
No tempo certo, no minuto preciso.
Nos atrasos e improvisos.

Sem censura, sem demora.
É a hora.
E vão girando as cores da música.

Os acordes cabem.
A cadência espera, e não era.(erra)
E nessa hora cai.

A música sem censura.
Segura é de sempre.
Se entrega e cai de vez nas cores.
naquela cor...
em todas as horas...
no improviso da música colorida.
gira e gira...
gira colorida.
toca.


Camila Vilarinho escritora e poeta baiana.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A ÚLTIMA CEIA- de Flamarion Silva

Olho minha mulher sentada à mesa. É Natal. Ceamos. Posso olhá-la à vontade, até certo ponto. Cronometro na cabeça o limite do meu olhar. Às vezes, propositalmente, ultrapasso essa barreira cronológica, só para ouvir seus xingamentos, só para sentir no meu coração apaixonado todo o ódio que ela nutre por mim. Ela bate na mesa com sua mão firme, que antes, isto bem antes, me acarinhava. Agora bate. Mas não me fere. Cada vez que a provoco é para que saiamos da inércia em que nossa vida se enfiou. Grita comigo. Minha linda mulherzinha esbraveja comigo e um pouco da comida da sua boca salta e bate no meu rosto, na minha boca. Abaixo a cabeça.
– Homem submisso. Fracote. Molambo – sei que ela diz essas coisas de mim. Mas o que ela nem ninguém percebem é que, ao me abaixar, submisso, o meu amor se nutre um pouco da vida dela. A língua, lenta, lambe o lábio e recolhe o alimento triturado, amassado, salivado pela sua boca.
***
– Quer mais frango? – ela perguntou outro dia. Quando? Olhe como o tempo é engraçado! Faz tanto tempo. Já se passaram tantos Natais.
– Quer mais frango? Vamos, queira, vou servir.
– Posso pegar uma coxa? – pergunto.
– Animal. Animal. Não pode ver comida. Tudo para se amostrar. Quando vê gente fica assim – ela diz, nervosa, e, sem modos e sem paciência, enfia com raiva um garfo enorme na coxa do frango, na maior coxa, na mais gorda coxa, e atira-a dentro do meu prato, respingando óleo na minha roupa branca de festa, manchando-a. Não reclamo, não lhe digo nada.
– Porco. Animal. Não pode ver comida.
***
Sorrio. Não repare, ela sempre foi assim estourada. Veja como me ama: agora mesmo acabou de derramar no meu prato um pouco de carne que sobrou. Ninguém quis.
– Como “ninguém.” Então há mais alguém além de mim e ela?
Nossa! Como a mesa está cheia! Filhos, genros, noras. E netinhos tão lindos!
– Vem cá para o vô, vem.
– Vô não – responde o menino, emburrado – Vô não – e me chuta a canela ferida, e dói, e sinto que sangra, mas não digo nada, ninguém pode perceber, estragaria o momento, não seria higiênico.
O sangue, misturado ao pus da ferida, gruda na calça. É uma ferida antiga que não sara. Já pensou, mostrasse o magoado sangrando e aí mesmo é que ela, com razão, me chamaria de porco.
Sorrio.
– Ah, zanguei – faço uma cara engraçada, de condoído, para o meu netinho.
– Macaco feio – ele me chama.
Todos sorriem. Veja como foi engraçado e como todos se acabam no riso.
– Posso pegar outra coxa? – pergunto.
– Não! Já vou tirar a mesa – e rápida raspa a tigela, os pratos, toda a comida da mesa.
No corredorzinho, indo à cozinha, olho seu corpo de moça, cinturinha delgada, nádegas volumosas, os cabelos compridos... Aspiro o rastro de alfazema que ela deixa.
– Pare de farejar a comida – ela diz, virando-se para mim, gritando, quase soltando, saltando a dentadura da boca, quase caindo de tonta.
***
– Calma, minha mãe. Calma – ouço a voz dela, num outro canto – E o senhor, meu pai, pare de aborrecer minha mãe.
– Ora, minha filha, não fiz nada – respondo, agora percebendo minha filha já de pé, segurando a mãe para não deixá-la cair. Tão parecidas!
Num outro canto, ouço cochichos, sibilos, cicios.
– Internar.
– Onde? Como?
– Mas quem vai querer o traste?
– Agüentemos mais um pouco. Logo emborca, embarca mesmo.
– Vaso ruim não quebra, minha filha – diz alguém com voz cínica, bêbada e esganiçada.
– Não fale assim dele. É meu pai.
Viro-me para ele, o cretino do meu genro e...
– Imbecil! Imbecil! Imbecil!
E três batidas firmes na mesa.
Minha voz saiu clara, mas todos insistem em dizer que, de tão bêbado, nem consigo falar. Deve ser o maldito bolo crescendo na minha boca que me obstrui a voz. E, agora, todos me condenam e chegam ao consenso de que é melhor internar.
– E rápido. Amanhã mesmo. Amanhã mesmo, logo cedo.
Cochichos. Sibilos. Cicios.
***
Daqui a pouco a festa acaba e todos vão embora. Festa de que mesmo? Ah, Natal.
– É tarde. Vocês dormem aqui. Arranja-se lugar.
– Eu tenho pena. Não passa de um doente.
– Então, interna-se. Não há outro remédio.
– Durmam no meu quarto, que é grande. Já está dormindo. Bebeu demais...
– Quê? A festa já acabou? – pergunto-me – Para aonde foram todos? E este silêncio... O maldito relógio. Não consigo ver as horas. A catarata anuviou tudo.
– Meu bem. Meu bem – digo alto, isto algum dia. Dúvidas. Pensamentos. Fantasmas que me assustam – Xô! Xô! Quê? Internar? Levanto-me. Upa, upa, quase caio. Internar? Ora, mas quem eles pensam que são? Separar, separar assim, cruelmente, duas vidas que Deus... E o que Deus uniu, o homem não separe. É um mandamento. Um mandamento. Um... Para sempre juntos, para sempre.
***

Dirijo-me ao quarto dela. O meu fica um pouco mais lá no fundo do corredor. Casa grande... Faz anos que nos separamos. Mas estamos juntos. Repare bem: juntos. É um paradoxo, eu sei, mas o teto ainda é o mesmo. Habitamos o mesmo espaço, partilhamos tantas coisas de anos: o cheiro dela, a voz, o andar, antes lépido e fagueiro, hoje arrastado. É esse som. É esse cheiro de alfazema. Os gritos e os desarranjos. E foi principalmente o ronco que, tantas noites, passo a passo pelo corredor, levou-me ao quarto dela, e lá, quietinho, no escuro, ouvia-o com prazer. De certa forma, esses pequenos detalhes preenchem minha vida, sem os quais não vivo. A faca. E o que Deus uniu, o homem não separe.
A porta aberta.
– Venha, venha por aqui. Escuro, mas o tato já sabe o caminho. Cuidado, o pé da cama. Aqui. Aqui, um momento, paremos. Ouça:
– Ronc! Ronc! Ronc!
– É o ronco dela. Aqui os pés. Aqui a barriga. Aqui a cabeça. E aqui, mais embaixo, o coração.
Ergo a cabeça e as mãos para o céu escuro do quarto e desço de vez, uma, duas, três vezes.
– Meu amor! Meu amor! Meu amor!
***
O escuro do quarto não me deixa ver o corpo. Sinto-o.
O corpo meio curvado, feito criança no útero. Sangue. Criança no útero, abortada. A boca travou.
– Não, não faça birra. Birra é uma palavra do meu tempo, quer dizer “teimosia.”
Os lábios ainda mornos, viçosos e carnudos... Ainda como antes. Sinto-os com os meus. O gosto de sangue na boca. Beijo de sangue...
– Ela apagou – digo por fim, com a certeza de quem desperta de um sonho tenebroso. Acendo a luz e vejo dois corpos na cama. No mesmo instante, minha mulher abre a porta do quarto, olha a cama e vê o corpo ensangüentado. Leva as mãos à boca e arregala os olhos. Um grito de pavor ecoa por toda a casa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

HISTÓRICO E MENSAGEM DE FIM DE ANO- de Carlos Vilarinho

Quando o leitoracrítica.blogspot de Gerana Damulakis começou a publicar meus textos o ano passado vivi um misto de orgulho e ansiedade. Orgulho de mim mesmo por estar ao lado e ser lido por grandes autores da Bahia, sobretudo, e ansiedade natural de escrever o texto perfeito. Se é que existe o texto perfeito. Era (e ainda sou) incentivado quase que diariamente por Gerana, crítica, ensaísta e também escritora com grande visão de vanguarda e desde então comecei a viver mais intensamente ao lado do texto. Muito próximo ao objeto de desejo. As produções aumentaram e a gana e vontade de escrever bem e contribuir para a transformação do povo, do mundo como um todo, foram tomando conta de mim. Humildemente arrisco a dizer que hoje escrevo bem melhor do que ontem. Além da atividade de leitura que naturalmente buscou um viés erudito para uma produção popularesca. E escrevi “O Fotógrafo”, “Transe Ritualístico”, “Cartas de Amor”, “Tudo é irreal”, “A FAVELA”, “Poema Modernista Tardio do Século XXI” além de uma pequena novela que espera pacientemente a hora de ser publicada “Três Tiros Numa História de Amor” texto que tenho muito carinho, entre outros. A vontade de publicar, de ler, de escrever era tão grande que quase me sufoca, ainda hoje.

Então, não sei como, comecei a bulir aqui e ali no computador, na internet e descobri como se faz um blog. Simples e fácil. Inicialmente dei o nome de um conto que me deu alegrias e prêmios em três cantos do Brasil, “O OGRO QUIROMANÍACO”. Com o OGRO fui selecionado na Bahia, em Brasília e no Espírito Santo. É um conto que gosto muito e que representa satisfatoriamente o trabalho que realizo. Comecei então a colocar contos antigos, crônicas que estavam dentro da gaveta, como “O Segredo do Universo I e II” a qual sugeriu uma discussão filosófica no blog com a opinião de escritores de porte como Gláucia Lemos e Gerana Damulakis, e, veja só, escrever poemas, que achava não ser a minha praia. Talvez ainda esteja em águas pluviais quanto a isso. Ainda que sofríveis, mas escrevi em tentativa de amadurecer eu mesmo e minha literatura. Percebi então que “OGRO QUIROMANÍACO” era nome de conto e não estrambolicamente de um blog de literatura. Como tenho certeza que meu trabalho literário está acima da maioria das coisas do universo e da seriedade que representa, mudei o nome para carlosvilarinho.blogspot. Dei o meu nome à minha cria, nada mais justo. Fui colocando textos, garimpando emails e passando adiante o blog. Tive cinco pedidos para retirar o endereço dos contatos. Cinco num universo que ultrapassou a casa de mil. Não os conhecia, como não conheço a maioria dos prováveis leitores. De repente acossado pelas leituras que fazia no leitoracrítica de Gerana, tive também o impulso de convidar outros escritores. Por que não? Estava disponibilizando meu tempo e meu trabalho para uma maior consciência do mundo e para a leitura do outro em geral. Só cresceria efetivamente, eu mesmo e meus leitores, com outros textos de outros autores, outras e novas idéias. E assim, agradeço aqui a colaboração de Flamarion Silva, escritor baiano remando em Double skiff comigo em raia literária, a feminíssima Renata Belmonte, Elieser César, Mayrant Gallo,felizmente ou infelizmente, amigo Mayrant, temos que seguir acreditando que vamos conseguir transformar, é o jeito. Tatiane Gonçalves, Heitor Brasileiro Filho, amigo da velha guarda da Universidade Federal da Bahia, Camila Vilarinho, da família e orgulhosamente apresento e introduzo ao mundo das Letras, o amigo Zé Luís, poeta cachoeirano também da velha guarda da UFBA, Valdeck Almeida, incansável militante literário e outros baianos convidados que talvez um dia junte-se a nós. E o que dizer dos escritores dos outros estados? Andréia Donadon e Edinara Leão, duas escritoras sensacionais, uma mineira e dona de um texto maravilhoso em prosa e outra gaúcha e poeta lírica, respectivamente. A mineira Clevane Pessoa, também militante das Letras que não se cansa de ganhar concursos literários Brasil a fora. Zeh Gustavo (ou seria Gustavo Dumas?) o carioca parecido comigo em irreverência e provocação. Meu cronista também carioca Jackson Vasconcelos, sempre lúcido nas considerações políticas. Seguidor do meu blog, o mineiro Carlos Soares. Também seguidor do meu blog, Mehazael, estudante de Letras e tradutor. A paulista Carla Dias. O amigo de Brasília, escritor e revisor Alexandre Lobão. Por último a belíssima gaúcha Soninha Porto. Por último porque só a conheci há poucos dias, não que seja a última de fato. Se deixei de citar alguém, por gentileza, me perdoe, mas a emoção é grande, sinta-se homenageado também.

Obrigado especial e abraço à Gerana Damulakis, grande incentivadora literária.

Quero agradecer a todos os leitores pela confiança, pelos comentários dos textos em um ano de blog literário. Espero ter forças, imaginação e criatividade junto com vocês para continuar em 2009.

Bom natal, boas festas!

Carlos Vilarinho

PIABA-de Zé Luiz Bernardo

Que que ta havendo?

Sumiço de pinto no galinheiro.

È raposa? Sarigue? Gavião?

Quem sabe ! Quem sabe!

Fica de olho

Tomemos as providências

É estranho

Só pega pinto

E faz a festa

Até as penas dá sumiço

E quando deixa

Olha o trucidamento cruel.

Mata por prazer ?

É estranho,

É estranho ...



É Piaba,

Há filha da puta,

Cachorra safada.



E leva as crias

Pelo mesmo rumo.



Perdemos

Mais de 80 pintos

Faz as conta

Eta prejuízo brabo

E agora que os filhotes

Aprenderam o caminho

Sova nos safados.



Trata de tomar providências: Chacomigo

Paulada certa – Na molera

Execução sumária.



Piaba ta enterrada

Na capineira

Matou mais de 80

Morreu de morte matada

Justiciamento no galinheiro

Felicitações gerais

Piaba ta morta

Graças a Deus.





SSa., 29.10.2008

Zé Luiz Bernardo é poeta de Cachoeira-Ba.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

NA RETINA E NO CORAÇÃO- de Carlos Soares de Oliveira

Quem acompanha meu blog sabe que tenho uma série “Pérolas de minha infância”, mas esse texto não posso incluir nessa série, até porque não tem nada de pérola.Gostaria de não ter visto essa cena.

Há muito tempo, quando não havia ainda no Brasil nem uma possibilidade de uma lei anti-racismo, estávamos, eu (branco de cabelos enrolados), Marcos (branco de cabelos lisos longos), Rocha (moreno claro cabelo crespo), Zé Roberto (loiro de cabelos longos) e Zezé (negro de cabelo Bob Marley). Claro que havia mais pessoas no local. Tomávamos cerveja após a pelada, num barzinho que era ponto de encontro da rapaziada e rolavam “brincadeiras” e piadinhas com a cor do Zezé, que sorria embora parecendo incomodado. Aliás, eu também, pois jamais gostei de apelidos, principalmente ligados à cor de pele de alguém. No fundo, no canto havia um negro, já meio de idade, talvez uns 35 anos, estranho para nós no bairro, quieto, tomando cerveja também e ouvindo tudo aquilo.
Certo momento ele se levantou e chegou à mesa:
- Quantos rapazes bonitos! Loiros, cabelos nos ombros.Tem até Roberto Carlos (apontando para mim).
Ficamos surpresos, boquiabertos até que ele tirou do bolso um canivete. Pensando que fosse agredir alguém, me afastei.
Ele não agrediu a ninguém, agrediu a si mesmo para nos mostrar apenas uma cor: a cor vermelha do seu sangue. Passou levemente o canivete no pulso, o sangue desceu na hora.
E então disse com uma careta que não sei se era de dor ou de indignação dizendo:
-Olhem aqui, loirinhos. Meu sangue é vermelho igual ao de vocês.
E saiu andando com o pulso pingando deixando um rastro de sangue.
Silêncio geral. Todos se olhando. Zezé abaixou a cabeça. Não sei o que meus amigos fizeram, se ficaram ali ou não, mas fui embora para casa, terrivelmente chocado.Aquilo ficou para sempre na minha retina e no meu coração.

CARLOS SOARES DE OLIVEIRA é escritor mineiro de Governador Valadares.

domingo, 7 de dezembro de 2008

NAMORAR-ME de Soninha Porto

No equilíbrio do tempo
os dias seguem vazios...

Finda a cada dia o gosto,
mais parecem nós desfeitos,
...Meadas ao relento...

Despida de rendas
morro-me a cada dia,
nas fendas do sonho.

Nada traz teu rosto,
olhos sem cobiça
guardam a lágrima caída.

Quem espero se demora,
entre risos e conversas.

Não me afaga,
somente a solidão
me namora.

O silêncio é poço sem fundo
amordaça minhas horas...

Sigo transparente,
não mais mergulho
no brilho do olhar,
na alma latente...

É preciso namorar-me
para abrir a porta
a quem chega devagar.


Soninha Porto
www.soninhaporto.com

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

UMA QUESTÃO DE CUSTO E DE OPORTUNIDADE OU QUESTÃO DE JUSTIÇA? de Jackson Vasconcelos

O certificado de filantropia é a maneira como o Estado reconhece que uma organização privada merece recompensa fiscal (isenção de pagamento da contribuição previdenciária patronal, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, PIS e Cofins), por propiciar à sociedade alguns serviços que ele próprio deveria oferecer.


No entanto, as situações que concedem benefícios ou privilégios estimulam gente séria e gente vil. Por isso, o Estado, antes de emitir um certificado de filantropia, investiga as provas de exercício efetivo das atividades merecedoras da recompensa fiscal e tem a obrigação de punir as organizações soi-distant filantrópicas, criadas e mantidas com o objetivo exclusivo de receberem, pela burla, a vantagem fiscal.


As exigências da lei e do governo para concessão dos certificados de filantropia tomam tempo precioso e acrescentam custos às atividades normais das organizações sérias. Mas, são exercícios que demonstram respeito pelos contribuintes, porque excluem os picaretas - os “pilantrópicos”na linguagem popular.


Sem pensar nisso, no dia 13 de novembro, o governo federal, com a desculpa de falta de tempo para exame dos processos e do custo alto que o trabalho representa, resolveu conceder certificados de filantropia de maneira indiscriminada – para organizações filantrópicas e “pilantrópicas”. A medida, portanto, misturou gente séria e gente vil (joio e trigo) sem ressarcir “o trigo” pelos custos e pelo tempo gasto com a comprovação de que não é “joio”. Ontem ou anteontem, o governo resolveu anistiar as dívidas dos que devem ao fisco até R$ 10.000,00 e há mais de 06 anos. Fez isso com a mesma alegação de redução de custos e de trabalho que utilizou para o caso das filantrópicas. E os que pagaram os seus impostos no tempo certo e no valor correto? Por uma questão de justiça ou de isonomia, não deveriam receber um crédito fiscal no valor da anistia concedida aos devedores? Deveriam, mas não receberam e, por isso, fazem jus a um certificado de filantropos ou de tolos.


Ora, para que houvesse isonomia(todos iguais perante a lei), no primeiro caso, as instituições sérias deveriam receber o ressarcimento das despesas que tiveram com a preparação dos processos para concessão do certificado de filantropia; no outro, os bons pagadores de impostos mereceriam, no mínimo, um crédito fiscal.


O grau de isonomia do cidadão diante do Estado é peça essencial na definição de um sistema político. Mas, tem gente que acredita que o simples fato de existirem eleições e de todos estarem obrigados a votar, conceitua a democracia. Nós, brasileiros e brasileiras, sabemos que não. O conceito de democracia vai bem além do exercício do voto e ingressa na qualidade das atitudes do Estado com a população.


O lado pior das medidas que comentei acima é a notícia que o Estado Brasileiro transmite de ser o cumprimento da lei uma relação com o custo e com a oportunidade. Ou seja, quando a submissão à lei for uma decisão cara ou trabalhosa, o Estado estará sempre dispensado de observá-la. Uma lógica que, a priori, pelos conceitos que tem a Justiça Brasileira, dispensaria, de pronto, quase todos os procedimentos judiciais, para ampliar a impunidade. Se deixamos de cobrar os impostos, porque isso é caro e se distribuimos direitos indiscriminadamente, porque a avaliação criteriosa dá trabalho, podemos, com justa tranqülidade, encerrar imediatamente quase todos os processos judiciais, as investigações, os inquéritos e os procedimentos de fiscalização operados pelo Estado.



*Jackson Vasconcelos é editor do site www.estrategiaeconsultoria.com.br
cronista político desse blog

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

LIVROS A MÃO CHEIA- até que enfim...


Diário Oficial de Quinta-feira - Nº 19853 - 20/11/2008 - Ano XCIII

Convênio com a Câmara Baiana vai priorizar escritores locais



A Assembléia e a Câmara Baiana do Livro dividirão as despesas e as responsabilidades



A Assembléia Legislativa assinou convênio ontem com a Câmara Baiana do Livro que permitirá a publicação de dois livros anualmente. O objetivo do convênio é o fomento da atividade editorial na Bahia, em particular incentivar a produção literária de escritores baianos. O ato foi realizado no gabinete da presidência, às 18h, com a presença de diretores e associados da entidade, que não possui fins lucrativos.
Depois de firmar o documento em nome do Legislativo, o deputado Marcelo Nilo manifestou a sua alegria em incentivar a cultura baiana, papel que considera "indeclinável da Casa que tenho o privilégio de presidir". Ele garantiu que a Assembléia dará continuidade ao "robusto" programa editorial executado pela Assessoria de Comunicação, implantado, como fez questão de registrar, pelo ex-deputado Antonio Honorato e ampliado por seu antecessor, o deputado Clóvis Ferraz (DEM).
O presidente da Câmara Baiana do Livro, Gilberto Amarante, agradeceu o apoio agora recebido e fez um breve relato da história de 50 anos da entidade que agora dirige, que possui cerca de 40 associados e "luta para garantir a publicação de livros escritos por autores "nascidos em nossa terra". Ele estava acompanhado do escritor, editor e ex-vereador da capital, Itaberaba Lira, e pelos escritores Carlos Vilarinho(ao fundo na foto) e Valdeck A. de Jesus, que tiveram trabalhos seus definidos através de concurso interno a serem sugeridos como os primeiros a serem editados pelo consórcio recém-firmado.
O convênio divide entre o Legislativo e a Câmara Baiana do Livro o custo das futuras publicações, sendo da responsabilidade dessas entidades as despesas referentes à editoração da obra, confecção da capa, digitação e revisão, cabendo à Casa o custo da impressão – a ser executada através da Empresa Gráfica da Bahia. Os títulos serão definidos entre as duas instituições.

QUEM PAGARÁ? de Jackson Vasconcelos

Diz a imprensa que o Brasil corre o risco de perder os US$ 5 bilhões que emprestou, por intermédio do BNDES, aos países da América do Sul. A notícia é ruim sem dúvida, mas a questão principal está em avaliar os mecanismos que autorizam um governo a, livremente, sem consultar os contribuintes, retirar US$ 5 bilhões do caixa de uma empresa pública, que trabalha com recursos dos contribuintes, para, numa operação triangular, garantir os negócios internacionais de empreiteiras brasileiras.

Ou não é?

Jackson Vasconcelos, cronista político desse blog.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A BONECA DE VELUDO PRETO

conto premiado de Clevane Pessoa



O retalho de fino veludo preto, na banca das "Casas Regente", tradicional loja de tecidos em "Juiz de Fora" , atraiu a moça. Pensou em cortá-lo em retângulos e neles aplicar flores de fita varicor, o que estava em voga naqueles anos sessenta. Gostava de trabalhos manuais e de criar peças para o seu enxoval. As claras mãos, muitos finas, destacaram-se no negro. O anel bonito, que terminava numa pérola encaixada em garras de ouro branco, faiscou. Presente de Pete, com quem namorava "firme", como diziam então.

Acabou mandando embrulhar o retalho, pagou e, como sempre, foi à sorveteria da loja, onde os fregueses podiam servir-se gratuitamente de um delicioso sorvete, mais cremoso que o de qualquer outro lugar.

Professorinha recém-nomeada, foi dar aulas em um grupo escolar. Muito ocupada fazendo todo o material didático, já que as escolas estaduais da época possuíam-no muito pouco – confeccionava desde as cadernetas de notas mensais, feitas de cartolina dobradas e decoradas com seus caprichosos desenhos, às provas mimeografadas... Mapas, quadro de pregas para ensino de unidades, dezenas, centenas... Flanelógrafos, corpo humano, fauna e flora! Tudo feito em casa, na grande maioria, mais o plano dos testes... Nas datas comemorativas, dezenas de pequenos brindes e enfeites, alusivo: dia da páscoa, em abril, dia das mães em maio, dias de festas juninas, dia dos pais em agosto, dias da árvore e da entrada da primavera em setembro, dias das crianças e de N. Sra. Aparecida, padroeira do Brasil, em outubro, dia da bandeira em novembro e, em dezembro, as festas de fim de ano, com suas formaturas ou despedidas. Haja papel-cartão, papel-cetim, papel-de-seda, papel fantasia, papel kraft! Haja isopor, cola, aquarela e lápis cera e de cor! Os dedos, machucados de tanto usar tesoura, o rosto com pontos luminosos de brocal, purpurina, as unhas estragando-se.

Mas o prazer de lecionar, agradar à criançada, ver os resultados, mesclado à criatividade que recebera como dom, sobrepujava em muito aquela canseira toda.

Também ganhava presentes, em certas datas, mas, principalmente, no seu aniversário e no dia do professor. Alguns, feitos a capricho, pelas mães, como panos de prato, toalhinhas de crochê. Outros, terríveis, certos bibelôs de porcelana branca, com traços informes e riscos dourados. Alguns insuportáveis perfumes baratos, brincos de plástico vagabundo. Os simplórios ou baratos, como sabonetes. Bichinhos de pelúcia, bombons, cosméticos, principalmente se a mãe era uma "revendedora Avon".

E broa com carinho, empadinhas sem azeitonas... De vez em quando, havia um pai dono de padaria, uma prendada tia, avó ou mãe confeiteira, doceira, costureira, florista... e, falando em flores, elas vinham aos montes, as de jardins e horta, as arrancadas pelo caminho ou roubadas de vizinhos...

Voltava para casa carregada com esses troféus do carinho que lhe dedicavam, feliz da vida. Uma vez, um aluno quis dar a ela algo inusitado:

- Um gato-coelho, fessora.

- Que é isso, Serginho?

- Um gato com rabo de coelho, todo branco, que pula como coelho.

A mãe dela adorava animais e, acompanhada do garoto, foi à casa dele após a aula. A mãe de Sérgio achou graça porque o animal – uma linda aberração – era a paixão da criança e da família.

- Olha, Eva, ele gosta muito mesmo da senhora, porque em casa é muito ciumento do bichinho.

Sérgio, nos dias de início das aulas, chorava tanto, que, literalmente, ficava com a camisa do uniforme encharcada. Chorava pelos olhos, pelo nariz, pela boca. Às vezes, pela bexiga. Eva fora tão carinhosa, que o conquistara "para sempre".

- Fessora, eu amo você para sempre!

- Que bom, Serginho, eu também, mas agora, vá para o recreio merendar e brincar...

Se deixasse, ele ficaria olhando-a, sem ir ao pátio com os coleguinhas...

Ele chegou com um sorriso de melancia no rosto moreno, olhos cheios de estrelinha:

- Olha tia, meu gato-coelho!

Ou então, um coelho-gato. O menino tinha razão. Um mistério de cruzamento. Deixou-o contentíssimo, aliviado, quando declinou do presente, com uma desculpa.

- Ah, Serginho, não vou poder levá-lo, porque na minha casa temos dois cachorros e ele vai correr perigo...

Num feriado, arrumando seus guardados, encontrou o retalho, já retalhado, em cinco retângulos menores. Teve a idéia de fazer uma boneca e foi costurando, com ponto caseado miúdo, braços, pernas, tronco.

Braços e pernas, após enrolar cada tecido sobre si mesmo, como rocambole, os primeiros mais apertados para ficarem mais finos e não precisarem de enchimento. Já as pernas, tronco e rosto, receberam espuma de nylon por dentro.

A cabecinha fez com um pedaço de cetim preto. Olhos de botões, boca e nariz bordados, cabelos de lã preta em mil trancinhas, vestido xadrez vermelho "vichy", avental marinho.

Fez por fazer, talvez para os filhos que tivesse, uma garotinha ou garotinho – afinal, estavam descobrindo que os meninos também podem gostar de brincar de pais. Mas, pronta a Maria Pretinha, pensou nos "filhos diários e resolveu levar a boneca para a escola.

A Maria ficou na bolsa enorme do tipo que as professoras usam para caber toda a tralha didática. De repente, Lu e Marcos saíram aos tapas, sem ouví-la quando pediu que parassem com a encrenca. Aí, lembrou-se da boneca e tirou-a, expondo-a aos olhos curiosos da criançada, que dela se aproximou. Quando os briguentos perceberam que não tinham platéia, também se chegaram. Aí, quase sem mover a boca, como fazem os ventríloquos, mas deixando o som formar-se naturalmente, admoestou Lu e Marcos e então começou a incrível história de amor, empatia imediata, entre os pequenos e Maria Pretinha.

A partir daí, tudo que queria, pedia através da boneca. Num dia em que esqueceu de colocá-la na bolsa, deixando-a pendurada no varal, para tomar um solzinho, foi uma decepção geral. Aninha, de sobrenome alemão e incríveis olhos azuis, passou todo a tarde a olhar para o lugar, sobre a escrivaninha, onde Maria Pretinha ficava sentada, costas apoiadas em livros. Eva notou que, após as perguntas iniciais, o resto da turma, compreendendo sua explicação de que ontem chovera dentro da grande bolsa de palha e, se não secasse, a boneca iria mofar, aquietou-se, participando das atividades do dia. Aninha, não: ora suspirava, ora enchia os belos olhinhos de lágrimas, olhando de vez em quando para o lugar sem bonequinha.

Após a aula final, a garotinha a esperou:

- "Fessora", amanhã a senhora jura que traz a Maria Pretinha?

- Claro, Aninha! Quando eu chegar em casa, vou contar a ela que você sentiu sua falta...

- Eu fiquei morrendo de saudades dela...

- "Vivendo de saudade", pensou Eva, fazendo um carinho nos cachos cor-de-mel e preparando-se para ir embora: não podia perder o ônibus, pois Pete saía do trabalho e corria para esperá-la no ponto final, de onde iam caminhando de mãos dadas, lentamente, ele falando de uma tal CLT, ser ou não optante da lei e ela contando dos aluninhos do pré-primário.

No fim do ano, quando as aulas iam encerrar-se, ela sabia que não ia voltar porque, casando-se, ia mudar de cidade. Fez uma festinha para sua classe, entregou a "Aninha Cachinhos de Ouro", como chamava a sensível menina, um pacote embrulhado em papel fantasia. Havia levado um presentinho para cada um dos alunos, deixando-a por último. Aí, abraçando-a, disse-lhe ao ouvido:

- Só abra quando chegar em casa, porque seu presente é especial, eu não tinha para todo mundo.

Aninha entendeu, surpresa, mas com medo de acreditar, correu para casa e no caminho rasgou um pedaço do embrulho... Acertara: os pés de Maria Pretinha apareceram fazendo seu coração bater mais forte.

Eva, parece que adivinhou ao lhe dar o presente; só teve dois filhos, homens, que, ensinados pelo avô, tinham horror a bonecas, "coisa de menina, mãe"... Mas Eva nunca esqueceu Aninha, nem esta a sua Maria Preta...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

ATAVISMO URBANO- de Carlos Vilarinho

Meu corpo produz uma energia cheia de raios,
Descendente de Xangô,
Que vão iluminar o mundo
Quando as águas o inundarem
E as trevas o tomarem
Em revolta da natureza.
Meu corpo, uma bola de fogo,
Um sol humano
Aquecendo e derretendo
O gelo em pedra dos corações.
Meu corpo em filetes ardentes e díspares,
Nos corredores frios do barroco quinhentista.
Túnel negro de betume,
Anel de inferno dantesco
O navio que trouxe meu corpo.
Meu corpo destrói a escuridão,
Transforma em crepúsculo
Em seguida dilúculo.
Meu corpo salva sem cruz.
Açoitado sem Jesus.
Meu corpo,
Enfim
O universo, de minha alma,
Deduz...(?)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O PÉRIPLO DO AMOR em "Vicky Cristina Barcelona"- texto crítico sobre o filme de Woody Allen-por Gustavo Dumas

Desde que abdicou do protagonismo cênico de suas histórias, Woody Allen parece ter desenvolvido ainda melhor uma capacidade que esteve sempre em evidência em toda a sua filmografia: a de operar ambigüidades em personagens que se apresentam assumidamente estereotipadas, enredando tramas que suportam (ou suportariam) quaisquer soluções. Estas, no entanto, parecem determinadas por uma espécie de visão ou, vá lá, intuição de mundo do autor – e assim evitamos tocar nesta palavrinha polêmica chamada “ideologia”.


Certo é que o Allen pós-ator parece ainda mais centrado em desqualificar bases sólidas da cultura do consumo made in USA, o que a própria mudança de cenário fílmico denuncia, por si. Na Londres de “Match Point” (Inglaterra/EUA/Luxemburgo, 2005) ou na Barcelona de “Vicky Cristina Barcelona” (EUA/Espanha, 2008), a nervura posta na frigideira é a do establishment e suas implicações na vida comezinha de cada um. Naquele, o tema era explícito: fazer o ponto (escalar socialmente) depende de “sorte”, isto seja relacionar-se com as pessoas “certas”, aceitar anular-se, tornar-se um débil mental produtivo, matar a mulher amada e por aí vai. No último, o toque na rede é sutil – Vicky, Cristina, Juan, Maria Elena, Doug, Judy, Mark trafegam pelas (im)possibilidades do amor contemporâneo que, olhadas da superfície, parecem tão vastas.


Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) fazem as amigas do título, duas americanas em viagem de férias pela quente e bela Barcelona. Hospedam-se na casa de Judy (Patrícia Clarkson) e Mark (Kevin Dunn). Vicky é a noiva-padrão de Doug (Chris Messina). Vicky e Doug são os protótipos mais jovens de Judy e Mark. Judy chifra Mark. Mark (finge que) nada vê. Vicky e Doug vão se casar em breve, está tudo planejado. Os dois se amam conforme o estatuto do amor conveniente, sem arroubos nem riscos. Tudo em paz. Já Cristina encontra-se (sempre) em busca. Trata-se da personagem mais interessante do filme, dado depreciado pela interpretação pixulé de Johansson. Cristina só sabe o que não quer, nos conta um cínico narrador intruso (voz de Christopher Evan Weich): homens pré-fabricados, família pequeno-burguesa, universo nove-às-seis-com-happy-hour. Doug é o idiota moderno arquetípico, cujo tesão de “viver” se manifesta quando planeja adquirir uma tevê de plasma de “última” geração. À sua ignorância, característica da formação para boi de mercado, arte zero, Doug junta ainda uma carinha de pretensão de dar nojo, ou pena.


Era só bancarem as turistas, encarando o papel de homus digitalis que cabe aos que não precisam mais do cheiro das coisas, mas não. Cristina (e Vicky, diretamente do armário) parece(m) querer mais. Juan (Javier Bardem) é pintor. Acaba de se separar de Maria Elena (Penélope Cruz), sua musa, também pintora, figura ponta-de-faca e sua principal influência estética, de quem diz: “nasceram e não nasceram um para o outro”. Juan aborda-as em um restaurante, propondo levá-las para (a cama em) uma cidade vizinha. Declara-se interessado nas duas amigas. Vicky se irrita, gagueja. Cristina se oferece. Vão. Vicky vai sobrar, mas Cristina passa mal. Rola uma noite de viola, vinho e “outras intensidades” entre Vicky e Juan. Cristina melhora, eles voltam da viagem e Juan e Cristina continuam saindo. Vicky se casa com Doug, apaixonada por Juan. Cristina vai morar com Juan. Maria Elena volta. Juan e Maria Elena dão certo novamente... com Cristina.


A trama básica está dada, em seus ingredientes principais. Quando a resolve, Allen completa um périplo: as coisas voltam para onde (se) partiram. Doug e Vicky com seu relacionamento certinho, Juan e Maria Elena separados, Cristina buscando... (“Quem procura o que não perdeu quando encontra não conhece”, já dizia Mestre Marçal, apud Wilson das Neves em seu disco “O som sagrado de Wilson das Neves”, de 1996.) Judy não se separa de Mark: “Ele é muito bom, não consigo”. As férias, como uma concessão do racionalismo burocrático e mercadológico à vida, precisam terminar. Para que a normalidade produtiva possa se restaurar, até com mais força.


Ao conceber uma espécie de quinteto amoroso, em tese, nada ortodoxo, e ao desintegrá-lo, reconstituindo o status quo provisoriamente alterado por um súbito desrecalque de potencialidades amorosas, Allen acaba por reproduzir um mundo em que o amor, a arte, o nonsense, o criativo ocupam um espaço de intervalo, nota passageira diante de uma rotina de anulação, de automação dos sujeitos – quiçá para alimentar um lúdico sem o qual muitos não juntariam forças para trabalhar todo dia. No final, todos perdem de goleada para o sistema.


Em um tempo de sensações mornas, de estabilidade monocrítica e de carência de alternativas para fora do lugar de controle do biopoder, os intervalos para a intensidade são breves como o tempo cronológico supostamente inverossímil em que decorre toda a ação de “Vicky Cristina Barcelona”. Contudo, há pessoas pintando, pensando, escrevendo. E até amando. Tendo a “busca como medida/o encontro como chegada/e como ponto de partida”, conforme os versos sábios de Sérgio Ricardo em “Ponto de Partida”. Elas são raras, infelizmente; porém existem. Allen se inscreve, como autor, neste círculo, sensível aos dramas de sua época, e deixa uma possibilidade de superação entrevista. Difícil para nós é conseguir enxergá-la, com nossos olhos saturados.


Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias "A Perspectiva do Quase" (Arte Paubrasil, 2008) e "Idade do Zero" (Escrituras, 2005).
Contato:zehgustavo@yahoo.com.br

contato@algoadizer.com.br

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O CASULO- de Carlos Soares de Oliveira

Pedrinho era um menino triste. Não gostava de brincar, não tinha amiguinhos, vivia pelos cantos. Um dia num de seus refúgios, como um eremita mirim, entrou num bosque, sentou-se sob uma árvore, encostou a cabeça nos joelhos e começou a chorar. Chorava de forma tão intensa que até as árvores, as flores e os bichos se contagiaram e ficaram tristes também; o esquilo chorou, o macaco não brincou, o passarinho não cantou, o castor nem se aproximou. Flores cabisbaixas guardaram seu perfume.

De repente uma voz suave murmurou:

-Ei, ei menino... por que chora?

Pedrinho nem respondeu, não queria falar com estranhos, continuou no seu mundo fechado, ensimesmado. Mas a voz insistiu:

-Ei, menino... não chore mais.Veja quantas coisas lindas à sua volta. Por que chora?

Pedrinho levantou a cabeça procurando ao redor quem falava, mas não viu ninguém. Ficou um pouco assustado e perguntou:

-Quem é você? Quem está aí?

Então uma grande e linda borboleta, toda colorida de azul, branco, vermelho, amarelo, era um arco-íris de asas, se apresentou com uma voz mais meiga ainda.

- Sou eu, uma borboleta.

-Nossa, como você é linda! Posso tocar em você? – entusiasmou-se Pedrinho estendendo a mão.

- Claro- respondeu a borboleta pousando naquela frágil mão... e cobrou.

- Por que estava chorando? Não gosto de ver ninguém chorando, menos ainda, crianças.Crianças existem para sorrir, brincar, estudar.

-Não está vendo estampado no meu rosto como sou feio? Olha meu nariz como é grande. E essas bochechas horríveis. Tenho pés grandes, ando até torto. Minha voz é esquisita (qualquer semelhança com o autor é mera coincidência). Tenho até vergonha de olhar para os outros com esses olhos esbugalhados.

-Ora, ora menino. Nada disso é importante, nada disso merece uma lágrima. O que importa é a beleza do seu coraçãozinho. Se você é um bom menino.Você me acha linda, não é?

-Acho sim, demais- disse Pedrinho ainda enxugando o rosto

-Pois olhe atrás de você nessa árvore. Veja esse casulo. Dentro dele existe uma lagarta cabeluda, cheia de pernas, asquerosa, que dá até medo nas pessoas.Nem por isso ela é triste, pois sabe que é parte da natureza, a perfeição que Deus criou, com tantas diferenças se encaixando. Antes de ser essa borboleta linda, eu era uma lagarta feia e vivia num casulo também. Eu me transformei. As pessoas devem se transformar.

Nisso, Pedrinho sentiu que a tristeza foi saindo aos poucos, foi ficando aliviado e até esboçou um sorriso de canto de boca.

- Como assim... transformar?

- De dentro para fora. Quando você estava triste, tudo à sua volta também estava. Se for pra contagiar, por que não de alegria? Metamorfose é respeitar as pessoas, as diferenças, as raças, as crenças. Não fraquejar diante de derrotas, aprender a caminhas com elas. Ser humilde nas vitórias. Dar chance às pessoas. Ajudar a quem precisa. Fazer o bem sem esperar recompensas e aplausos. Acordar de bom humor, abrir a janela e dizer: Bom dia sol! Bom dia vizinho! Bom dia Deus! Abrir os braços abraçando o mundo. As pessoas vivem dentro de casulos e não sabem, fechados, escuros, sendo que o mundo lá fora é tão brilhante. São estrelas e não sabem.Sorriso não tem preço. Venha, siga-me. E saiu voando.Pedrinho foi atrás. Seus olhos pareciam duas pepitas, reluzentes, sem lágrimas. Saiu correndo, pulando, como uma criança de verdade. Chegando à beira da rua a borboleta continuou.

- Veja quantas crianças. Como brincam, como são felizes. Vá brincar também.

Pedrinho olhou para a nova amiga jogando um beijo no ar e disse:

-Muito Obrigado! Estou me sentindo lindo!- e saiu correndo em direção à meninada.

- Missão cumprida-pensou a borboleta e voou para longe, quem sabe para salvar outros meninos.

Era uma vez um menino triste... era, não é mais.

Mais um casulo se quebrou.



CARLOS SOARES DE OLIVEIRA

domingo, 23 de novembro de 2008

Obrigado pelo prêmio



http://leitoracritica.blogspot.com/
http://achamarte.blogspot.com/

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A FAVELA- de Carlos Vilarinho

A favela,
Lixo, ocidente, manivela.
A favela,
Descuido, sandice, novela.
A favela,
Becos, pau-a-pique, ruela.
A favela,
Pagode, rap, cinderela.
A favela,
Estranho e esquisito sob a janela.
A favela,
Sirene, fogo, olho furtivo em trivela.
A favela,
Alvoroço, desespero, feijão fora da panela.
A favela,
Flores, enterro,
Nunca mais o amor dela...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

OLHAR-TE de edinara Leão

Olhar-te

Como nao te olhar
se são teus ventos
que perfazem
meu tempo.
em tuas mãos,
em teus olhos,
sou rainha
de tempos perdidos
perambulando vias
em teu templo
sou sacerdotiza
do eterno mistério

nunca cessaria
de te olhar,
só olhando
em teus olhos,
por teus olhos
sou eu mesma
mulher inteira
porque tua.

Edinara Leão

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

SABEDORIA DE MÃE - de Jackson Vasconcelos

O historiador Will Durant conta que a mãe de Mêncio, filósofo chinês reconhecido como herdeiro do Manto de Confúcio, se viu obrigada a mudar de residência algumas vezes, preocupada com a educação do filho. A primeira, por residir ao lado de um cemitério e o menino, com o tempo, imitar o comportamento do coveiro; a segunda, por estar nas proximidades de um matadouro e verificar que o menino emitia os gritos dos animais sacrificados e a terceira, em razão de Mêncio agir como comerciante, estimulado pela presença de um mercado nas proximidades. Ela sossegou quando, finalmente, montou residência em frente a uma escola e avaliou o resultado da decisão na vida do filho.


Sem dúvida, no tempo de Mêncio existiram pobreza e crimes, mas, com certeza, não na escala em que estão presentes no mundo moderno e principalmente na Cidade do Rio de Janeiro, onde há pelo menos 30 anos os governos tentam reduzir a criminalidade pelo confronto direto, armado e em campo aberto entre a polícia e os bandidos.

As vítimas mais presentes e os principais protagonistas desse processo de intensa criminalidade e violência são as crianças e pessoas, até mesmo policiais, que não atingiram a idade de 25 anos. Gente que não havia nascido ou que estava na primeira infância quando, em 1986, começou no Estado do Rio de Janeiro a prática de vencer a violência exclusivamente pelo uso da força.


Será que a aplicação de políticas públicas mais consistentes no campo da educação com conseqüente abertura de oportunidades melhores de ocupação e renda não teriam oferecido aos bandidos de hoje e suas vítimas um destino diferente?

Mark Goldblatt criou o filme O Exterminador do Futuro, com o enredo de uma guerra entre os humanos e os robôs e fato principal, na decisão dos robôs de mandarem ao passado um dos seus com a ordem expressa de exterminar o garoto John Connor que, no futuro, seria o líder da resistência humana. A obra trabalha com uma definição incontestável: o presente é o passado do futuro.

Ora, se, de fato, temos o desejo de construir um ambiente que seja mais humano e não possuímos o dom de retornar no tempo para modificar o presente, só nos resta organizar melhor o futuro. E, se o interesse é reduzir o grau de violência, de criminalidade, de ausência de virtudes, o caminho não pode ser outro senão investir pesado na educação e gerenciar melhor os recursos destinados a aplicação das políticas públicas. Neste contexto, é preciso considerar a importância da lei que estabeleceu um piso salarial nacional para os professores da educação básica com carga horária de 40 horas semanais. Ela nasceu de um dos projetos de lei do Senador Cristovam Buarque, que fez da educação a bandeira principal e quase única de sua atuação política. O Senador atua na vida pública com a compreensão de que o futuro se faz no presente.

Há quem diga que a lei é corporativista, porque beneficia os professores sem qualquer garantia de resultado na qualidade do ensino. A valer o argumento, é o caso de perguntar: porventura, os salários que os governos pagam hoje aos professores do ensino básico têm garantido qualidade?


Do mesmo modo, tem quem grite contra a interferência de uma lei federal no ambiente de autonomia municipal. Mas, até aqui os municípios têm utilizado a autonomia que possuem na direção de melhorar a qualidade do ensino público?

A lei Cristovam Buarque não nasceria se a vida presente dos jovens brasileiros indicasse que os governos no passado cumpriram bem com o seu papel de produzir educação com qualidade.


*Jackson Vasconcelos é editor do site www.estrategiaeconsultoria.com.br

terça-feira, 18 de novembro de 2008

SEUS PERDIDOS, MEUS ACHADOS -de Andreia Donadon- texto quarto lugar no Festival de contos de Paranavaí.

Dora estava muito cansada, definitivamente esgotada. Os meses anteriores não tinham sido fáceis. Trazia o coração em ritmo acelerado; o sono triplicado pelas inúmeras noites em claro. Despejar lágrimas era cansativo. Escutar o barulho de vozes exigia o resto das energias poupadas. O burburinho cada vez mais longe, cenas lentas e o cheiro de vela queimando, penetrava suas narinas sem cor e dilatadas. Sentia o cheiro mais pelo barulho das chamas trepidando silenciosamente no castiçal de prata embaçado. Alguém não tinha feito o serviço direito. Não tiraram as últimas ceras que criavam uma crosta espessa e fedorenta. Fumaça acinzentada. O vôo da mosca imperceptível com barulho misturado às vozes de pessoas que não revezavam nem em uma ínfima virada de segundo. Dora sentia o vôo das pontas de asas das moscas batendo. Um chocalho familiar de pulseira... Cheiro de perfume abafando o fedor de vela queimada. Alguns dias antes a chuva respingava com violência lá fora, gotas grossas batiam no chão. A luz teimava em apagar enquanto o pai cantarolava uma música para ela. O quarto era constantemente limpo. Nas crises de falta de ar, o balão de oxigênio, um dos poucos equipamentos, pois era o único meio de chegar ar até os pulmões. Um suplício para ela e para o pai. Vivia com o coração sobressaltado diante das crises. O pulmão estava debilitado demais. Depois que a crise passava, ele sentava no chão da sala e chorava copiosamente: - quase a perdi! Falava baixinho. Foram inúmeras crises. A mãe tinha assistido a algumas e a calma que emanava de seu ser a chocava. Lembrou de um momento em que acabara de ter a crise mais forte de sua vida e ela acabara de chegar. As mãos entrelaçaram-se as de Dora e beijou-a carinhosamente no rosto e disse algo que não conseguiu escutar. Da fresta da porta viu o sorriso triste no rosto do pai. A campainha tocou estridentemente. Olhou o relógio no alto da parede do quarto e já passava das três e meia da manhã. O corpo não respirava mais. As lembranças teimavam em penetrar os pensamentos. A caixinha com seus perdidos... Fizera questão em perdê-los para morrer junto com as feridas. Dora nunca negou que o pai fosse a pessoa mais amorosa e doce que conhecera em toda sua vida. Não, isto jamais negaria. A bondade e o caráter dele foram imutáveis a tal ponto de cerrar suas cicatrizes que subitamente insistiam em abrir e sangrar. Feridas que nunca fecharam. Olhava o semblante angelical do pai, pairado, estático com as mãos sobre o caixão. O pai foi um anjo, tranqüilo, paciente, meigo, sofrido e de uma bondade que chegava a doer nela tamanha generosidade. Sempre entendia, aceitava e repetia: - Mais cedo, ou mais tarde, filha. Estas frases às vezes mais a irritavam. A complacência chocava. Não era possível uma pessoa ter tanta explicação para coisas inexplicáveis ou óbvias. Mamãe nunca nos amou e nos aceitou, foi rejeição a partir do momento que sentiu os sentimentos dos outros, pensou Dora. Era triste perceber como nunca amara seu pai, nunca o amara de verdade.

Alguns anos Dora fora tomada de uma doença grave acometida por febre alta, urina escura, mal estar e dores musculares. Com tempo os sintomas foram progredindo por uma coloração amarelo-dourada da pele e conjuntivas. De quarentena em casa. Hepatite. A comida, o prato, todos os cuidados e carinhos eram repassados pelo tratamento cuidadoso e preocupado do pai. As noites em que Dora quase padecera de dores e altíssimas temperaturas, os pedaços de pano embebidos em álcool repousavam nas partes do corpo.

- Cadê mãe, pai? Variava. Hoje ela volta pra casa?

- Volta Dora. Hoje ela volta...

- Que horas?

- Mais cedo ou mais tarde...

O sono invadia as crises de Dora pelo cansaço e os olhos só abriam no dia seguinte sob o olhar trôpego e desfocado da mãe. Semblante enrugado, cabelos desgrenhados e um palmo sem cor. Dora olhava para ela sem entender a frieza que emanava de seu ser. Sentia e sofria sob o olhar perdido em algum ponto invisível e um monossílabo da mãe: - Bem? Mal tinha tempo em balbuciar uma palavra e a florzinha do mato era repousada sobre a cama ainda com cheiro de mato e terra. Um pedido de desculpas? Ora, ela nunca tinha tentado ou se desculpado pelas ausências e falta de afeto. Quando aparecia estava com ressaca visível ou com dor de cabeça. O que mais doía em Dora era o olhar distante. Afago ou toque sutil bastavam os do pai. O costumeiro e amoroso olhar dele, guardado. A mãe tinha quitado o afeto pela maternidade. Só serviu para segurá-la a duração de uma gestação, depois não se lembrava mais, estava perdido. A florzinha abria as feridas da falta do carinho da mãe. Mirar a flor era sofrível demais. Inúmeras foram repousadas em seu leito e nunca entendera o sentido delas. Recusava-se. Esquecia as flores em qualquer canto do quarto, que com o tempo se perdiam no esquecimento, no relaxamento de querer matar a dor do desprezo. Foram inúmeras e incontáveis perdidas em algum canto da casa. A brisa do vento talvez as levassem ou o pai varresse o que sobrara delas no dia seguinte... Ou a decrepitude do tempo. Pouco importava para ela. Era previsível: mais dia ou menos dia, como dizia ele, viria e deixaria uma flor. Sumiria nas próximas semanas ou meses com algum homem, e o pai de Dora sempre esperaria o retorno, o arrependimento, a mudança. Ele sempre esperou, apostou uma vida nisto e mais triste para ela foi perceber a esperança até o último instante, no gesto inesperado: uma caixinha de veludo com a insígnia: seus perdidos e meus achados.

Dora acompanhava astutamente o barulho das pedras da pulseira se chocalhando e o cheiro de fragrância barata. Ela estava lá... Lembrou das palavras do pai e sua voz latejando nos ouvidos: - Ela sempre virá, minha filha! Segurou com mais força o choro que insistentemente teimava em despencar pelo rosto. As palavras do pai aumentavam sua solidão. Estava sozinho e abandonado. Mais cedo ou mais tarde: ela virá. Esta frase era conhecida e repetida inúmeras vezes por ele. Fazia questão de perdê-la. Entrava pelo ouvido esquerdo e saía pelo direito. Lamentava... Ela lamentava tanto. O cabelo totalmente descolorido e amarrado em uma fita vermelha. O rosto mais enrugado que de costume. As roupas amassadas e encardidas, as unhas comidas e com resto de esmalte velho. Ela era o foco de Dora. O barulho da mosca bailando no recinto e o cheiro de vela queimando não incomodavam mais. Semblante sisudo, olhos vermelhos e inchados. Remorso? Só poderia ser. Dora percebeu sentimento no rosto da mãe. A figura também se encolheu coberta em um xale de tricô preto que tapava todas as partes das costas. O osso estava apontando no tecido de lã. Estava debilmente desamparada e triste. Apagada. Pela primeira vez, Dora viu a mãe se apagar no meio das pessoas. Sombria e triste. Velha e cansada. Poucas vezes vira o rosto em harmonia. Raríssimas vezes que até se esquecera. Fizera questão de desprezar o retrato sobre a mesinha no canto da sala. Três figuras sobrepostas num fundo azul e verde. Três figuras abraçadas e felizes. Esta foto não combinava com os sumiços dela. A tristeza do pai e a carência de Dora. Doía olhar o retrato com a cena que não representava mais. Num ato repentino de revolta cortou o rosto da mãe do retrato. Jogara em algum canto da sala. Estava perdido ou foi varrido pelo vento ou pelas cerdas da vassoura junto com os ciscos. Perdera. Fizera questão. Fazia questão de esquecer as pontas que abriam as feridas. Abandonava-as em qualquer canto. Perdia-as em um lugar qualquer. Esquecia a existência delas, ou quando lembrava não tinha mais a prova da dor. O pai sempre entendera, inquestionavelmente compreendera e aceitava a atitude. As pontas da pulseira batendo na beirada do caixão chamou a atenção dela. Perdida em pensamentos que insistentemente fizera questão em apagar de sua vida. O chocalho da pulseira no caixão e as mãos acariciando seu rosto sem vida seguido de um choro muito triste. A mãe era uma incógnita. Desconhecida e estranha. Os perdidos guardados em uma caixinha de veludo pelo pai, pouco antes do falecimento colocado no guarda-roupa com a inscrição: seus perdidos e meus achados. Aquela caixinha tinha a passagem mais doce e feliz de sua vida familiar. As florzinhas do mato, o retrato constituído da família, os retratos da mãe carregando-a no colo, todos perdidos por Dora: achados e guardados por ele. Com gesto repentino, mas conhecido por ela, a mãe repousou sobre as mãos de Dora a florzinha do mato com cheiro de terra e mato molhados. Antes de fecharem a tampa do caixão lançou um olhar demorado sobre a figura estática da filha. Com o corpo sustentado por duas mulheres na procissão até o cemitério, o pai de Dora chorava convulsivamente e sua mãe caminhava silenciosamente atrás. O buraco fundo e pequeno engolia o caixão, a música antes da despedida aumentou os soluços e choro do pai: “fica sempre um pouco de perfume, nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas”... A mãe jogou uma rosa sobre o caixão antes de ele afundar na terra.

- Mais cedo ou mais tarde, querida... Ela volta, não se preocupe minha filha. Ela sempre virá... Lembrou das palavras do pai. Dora foi tomada de um sentimento novo pelas imagens achadas e guardadas por ele e foi em paz com as flores repousadas sobre o seu corpo.


PARABÉNS ANDRÉIA. SAUDAÇÕES BAIANAS!

Andréia Donadon Leal - Déia LealDiretora do Jornal Aldrava CulturalGovernadora do InBrasCI-MGMembro da Academia de Letras Rio- CM e da AVSPEMembro da Academia Cachoeirense de Letras(31) 8893-3779(31) 8431-4648http://www.jornalaldrava.com.br/pag_deia_leal_plan.htm

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

ANDREIA DIAS- blues e pop rock

VISITE: Andreia Dias-blues e pop rock de qualidade.

Fotos em alta: http://www.andreiadias.com.br/FotosAndreiaDias.zip
Site oficial: http://www.andreiadias.com.br
Videos: http://www.andreiadias.com.br/videos.html
Produção e shows: http://www.scubidu.com.br

FUGA - de Alexandre Lobão

Você já teve um daqueles pesadelos que parecem não terminar nunca?
Daquele tipo em que você acorda, assustado e aliviado por sentir o calor e a segurança de sua cama, até que o mundo vira de cabeça para baixo, e você, apavorado, percebe que seus temores não eram um sonho, afinal?

E depois acorda novamente, e a cena se repete, e você acorda de novo, e de novo, sem nunca saber se continua dentro do mesmo e terrível sonho, ou se finalmente acordou?

Pois, para mim, esta foi uma noite daquelas.

Acordei banhado de suor e respirando com dificuldade, mas fiquei grandemente aliviado quando percebi que finalmente acordara e o pesadelo havia chegado ao fim.
Isto, por cerca de um ou dois segundos.

Foi o tempo que, assustado, levei para perceber que não estava em minha cama, e que o ar viciado que eu respirava combinava perfeitamente com a escuridão total que me cercava.

Tentei me mover, e percebi, desesperado, que estava preso em uma espécie de caixa. Sem parar para pensar empurrei com toda força a tampa, e não fosse o peso das lembranças me assaltando ao mesmo tempo em que meus olhos reconheciam o ambiente, eu poderia jurar que continuava no pesadelo.

Eu estava dentro de um caixão, que descansava sobre uma mesa de mármore na mesma cripta do cemitério da cidade que eu havia visitado no dia anterior.

Com o medo fazendo subir a bile de meu estômago, pulei do esquife, meus olhos aflitos procurando a saída e circulando nervosos sobre inúmeros caixões, organizados em prateleiras de cada lado da cripta.

Com um grito que morreu em um nó na garganta, percebi que vários dos caixões se abriam, como se o barulho que eu fizera tivesse acordado seus ocupantes. Apesar da escuridão do local, pude entrever corpos magros e pálidos, olhos vermelhos e dentes. Grandes e afiados dentes.

Em pânico, disparei pela única saída da cripta, que levava ao mesmo corredor que eu percorrera no dia anterior. Senti, mais do que vi, as sombras escuras que se aproximavam e gritavam como que em agonia, logo atrás de mim.

Ao fim do corredor pude ver um raio de luz, uma esperança ao longe que minhas pernas pareciam não ter força ou velocidade suficiente para alcançar.

Com o desespero me impulsionando, não ousei me voltar, mas pude sentir o frio das mãos esqueléticas que tentavam me agarrar, rasgando minhas roupas e arranhando as minhas costas. Pelo canto dos olhos, pude ver sombras correndo, movendo-se de maneira estranhamente inumana não apenas no corredor atrás de mim, mas também pelas paredes e teto.

A pouca distância.
Minha mente, estranhamente confusa, lembrava da cena semelhante, ocorrida no dia anterior: eu entrara na cripta, para roubar um crânio como uma estúpida prova de coragem para meus amigos.
As memórias, flutuando, trouxeram de volta à boca o sabor aziago do medo que senti quando, aterrorizado, vira – como agora - os caixões se abrirem lentamente.
O desespero repetido de correr pelo mesmo corredor, com as mesmas sombras me caçando, quase me levou à loucura.

Sem tempo para articular nem um pensamento a mais, saboreei a sensação de júbilo e vitória ao me atirar para a luz do dia, deixando na escuridão os vampiros que gritavam de frustração e ódio.
Apenas quando senti a luz do sol queimando minha carne até os ossos foi que lembrei que no dia anterior havia uma grande diferença!
Eu havia corrido até o fim do corredor e, da mesma maneira, atirei-me para fora, deixando os vampiros para trás.

Porém a luz do dia, agora mortal para mim, me lembrava que no dia anterior, ao fim do corredor, eu havia encontrado a noite.
E vampiros não temem a noite.

Alexandre Lobão, escritor de Brasília