sábado, 26 de julho de 2008

AS CARTEIRAS, AS IDIOSINCRASIAS E A CARONA- Carlos Vilarinho

FUI EDUCADOR DO PROJOVEM-2007-PROJETO DE INCLUSÃO DO GOVERNO FEDERAL PARA JOVENS QUE NÃO FREQUENTAVAM A ESCOLA HÁ ANOS. NOVIDADE PARA MIM ESSA DEMANDA, MESMO NUNCA ME IMPRESSIONANDO COM OS OCORRIDOS, FRUTO DA EXPERIÊNCIA DA OBSERVAÇÃO ANTROPOLÓGICA LITERÁRIA, ESCREVI ALGUMAS CRÔNICAS DO LUGAR QUE TRABALHAVA, ESSA É UMA DELAS.


PROJOVEM 03

Finalmente as carteiras de duas turmas chegaram. Nós, os professores, fizemos infinitas improvisações para dar aula nesses primeiros dias. Não havia como delimitar um assunto, por exemplo, de Matemática. O professor Urbano, já apresentado como titular das Exatas, não tinha como definir ou conceituar Fração, por assim dizer. Aliás, tinha. Só que no outro dia teria que falar tudo novamente, pois alguns faltavam, ou entravam em outra sala com outro professor e outra matéria, evidentemente. Todas as turmas misturadas e uma mixórdia total. Com a chegada das carteiras podemos então encaminhar os docentes para as suas devidas classes e assim começar de fato o programa.
Assumi então meu posto de orientador em uma das turmas. Cada professor é orientador de uma turma. Não sei se isso funciona mesmo, achei uma barra meio forçada. Eu, pelo menos, nunca orientei pedagogicamente algum aluno. Acho que nem eu mesmo sou orientado. Quando a equipe docente caiu em si, em torno do horário mandado, percebemos falhas gritantes. Por exemplo, a professora Flora em um certo dia da semana permanece os cinco horários da noite em uma mesma turma. Dá duas aulas de específica, ou seja, sua própria matéria, e então permanece lá, na mesma turma fazendo trabalho de orientação. Não entendi desde o início das reuniões burocráticas (e quanta reunião burocrática) o que se deve realmente fazer para orientá-los de forma convincente. Como deve ser uma orientação. Aliás, não só eu, a professora Helena e Flora também não. Urbano e Dido, remanescentes desse programa educacional em ano passado, tentaram nos explicar sem sucesso. Se entender, mais na frente com o bonde em andamento, explicarei ao leitor.
Comecei a perceber que os estudantes não se comportavam como estudantes, mas como alunos. Alunos bem primários. Paradoxos desconcertantes. Ao mesmo tempo em que eram imaturos,mal-educados e toscos, se apresentavam também carinhosamente e desconfiados. Percebi também que a desconcentração é para eles o grande adversário. Ainda não faço a mínima idéia de como fazê-los entender que o ar de uma sala de aula é diferente de qualquer outro tipo de atmosfera. O engraçado é que a maioria não se dá conta que ali talvez seja a última estação de transbordo para, ainda talvez, salvar-lhe a vida. Na verdade não sei se é engraçado, preocupante, triste ou infeliz. Não gosto de ter certeza, mas nesse primeiro momento, nesses vinte dias iniciais, não vi progresso discente. Fiz um esforço homérico, com todo respeito ao rapsodo grego, para não sequer pensar em subutilização ou inutilidade. Confesso-lhes, meio encabulado, que para não cair em desgraça descrente, até então, pensei no salário. Sentia saudades diariamente de minhas aulas na Universidade, dos meus alunos mais velhos e esforçados.
Para finalizar esse registro, contar-lhe-ei um episódio que não sei se o considero normal, incomum, preocupante ou apreensivo. Dada a universalidade nivelada rasteiramente da demanda estudantil, os discentes não se diferem muito. São muito parecidos e agem quase sempre da mesma forma. Um dia acabei minha aula e ia para casa. Ao chegar no pátio, percebi em uma das salas uma discussão entre duas alunas. Fato não notado pela professora Flora que fazia ajuste no horário com a professora Dido. Desconfiei mas não me deixei levar em conta no ocorrido. Segui meu caminho. Quando já estava para sair da sala dos professores, vi uma das que estava discutindo sair apressada, destemida e audaz da sala. Com uma revolta no semblante e com uma expressão anormal, disse-me que ela não era louca. Ao passo que concordei, discordando por dentro, imediatamente. Até então ninguém do corpo docente, além de mim, e administrativo havia atentado para o fato e sua gravidade. A estudante que, segundo ela, não era louca, ficava cada vez mais ofegante, respirava fortemente e avermelhava-se acumulando ódio e raiva. Tentei acalmá-la em vão. Ela não ouvia nada, nem ninguém. Num rompante sensacional arrancou da bolsa uma tesoura e partiu correndo para tesourar a outra. Nesse momento, umas das coordenadoras do programa, não vou nomeá-la agora, até porque não precisa, chegou ao núcleo. E no corre-corre, conversa daqui, conversa dali, conseguimos, depois de algum tempo eu, a tal coordenadora, a assistente administrativa (depois lhe dou um nome) e um vigilante, colocar as duas alunas frente a frente para dirimir as dúvidas. A coordenadora com muita habilidade tomou de imediato a tesoura. E ali tive certeza do que disse lá em cima no início do parágrafo, esses estudantes agem da mesma forma. As duas em ímpetos misturados de raiva, ódio e até compaixão uma pela outra foram às lágrimas. Mesmo assim a muito custo se desculparam desconfiadas entre si e entreolhando-se de través.
Fui para casa, mas uma coisa me deixou vexado por entre os dias que se seguiram. A professora Helena, sobretudo ela, fez zombarias burlescas por essa minha intervenção no fato. A essa minha idiossincrasia. O que é pior comentou ironicamente com o tal marido durante uma carona. Nunca mais peguei essa carona...


Outubro 2007
Carlos Vilarinho

3 comentários:

Renata Belmonte disse...

Incrível, Carlos! Parabéns pela sua atuação, precisamos muito disso.
Abraços,
Renata

Carlos Vilarinho disse...

Renata, é uma antítese, paradoxo, que seja, tragicamente cômico. Contra-mão.

Gerana disse...

Nossa, chega a ser espantoso!