domingo, 6 de julho de 2008

FRAGMENTOS - de Andreia Donadon Leal

Andréia Donadon Leal

Dia de domingo é enfado enfadante, ou mesmo, redundante. Sem nenhuma inspiração intelectual ou mesmo artística, esbaldar de comida engordativa, neologismos sem neo, não interessa se a palavra ofende os olhos do leitor repleto de academicismo. Esta maldita segunda-feira infernal está com pé quase no dia de descanso. Amanhã, tristemente, segunda-feira, chefe de cara amarrada, autoritário, nervoso, mais calvo e burro com o perdão dos animais. Segunda-feira deduz que o chefe é mais desprovido de conhecimentos que você. É mais desprovido de bom-senso, é mais desprovido de humanidade; é mais desprovido de vocabulário, é mais desprovido de idéias, é mais desprovido que todos os seres desprovidos. Será que você é o ser mais desprovido de chefe desprovido?
Engole o tédio ácido que corrói lentamente os acordes estridentes vindos da televisão e showzinho patético de domingo: os terríveis e massacrantes programas de auditório. Se bem que dia de semana, a programação muda de roupagem, entretanto não ganha muito conteúdo, talvez mais descarrego de desgraças. Vê a cara de satisfação do repórter ao frisar: diversas pessoas foram assassinadas em chacina! Roubaram, mataram! Não precisa ser pobre para roubar, descobre? Miserável, abandonado à própria sorte e desesperado. Rico e engravatado rouba e rouba descaradamente, inteligentemente. Não fica preso. Se safa, na boa. Quanto mais sangue e escândalos, mais lucros. Tem medo de ligar o aparelho de televisão e se deprimir. Depressão fica sarada com psicanalistas, psicólogos e psiquiatras... Tem medo de chegar perto da janela e tomar uma bala “perdida” propositalmente de alguém que atira bala de chumbo por todos os lados. Tem medo de tudo e de todos, até da sombra.
Com pote de sorvete na mão, os pensamentos voam para além da tela de plasma. Pasmo de aflição não dicionarizada da verborragia inefável de querer dizer nada, fazer nada, sentir nada, tirar o time de campo. Uma expiração, ajuda? Um suspiro enfastiado limpa o pulmão colorido pela fumaça de nicotina. Se bem que parou de fumar há algum tempo: um punhado de abstinência. O aroma da comida atraí mais. Entreter a boca com alguma coisa ao invés de soltar ares de poluição.
Os moleques não brincam com a bicicleta na rua. Não sentam no passeio com mais molecada e ficam a toa ou soltam pipas ou jogam bola ou ficam na rua mesmo jogando conversa fora. Estão encarcerados dentro do quarto, com olhos vermelhos de mirar a tela, com dedos teclando com ditos amigos virtuais. Informatização, globalização, flexibilização, on line, automatização, site, telemarketing. Internet-vídeo-celular-tele-pizza-fax-email... Nem um chio, sussurro, miado do gato que ninguém mais olha... De lado, abandonado, depressivo. O cachorro jogado no quintal olhando a lua. Perplexamente, o cachorro olha a lua, talvez converse com ela ou namore-a. Sonha? Quem sabe dizer se cachorro sonha, medita? Mais racional? Mais zen? Na dele, na boa; de namoro com a lua.
Dia de domingo é enfadante? De novo? Se bem que começamos todo dia numa ciranda sem música, ou com música lancinante. Os ouvidos não têm noventa anos, e é obra de Duchamp. Percebe que faltam algumas horas para o domingo findar e o calendário virar, com nostalgia. Domingo é chato, medita?
Domingo é dia de abandono de pensamentos e ações mecanizadas, voltar para dentro de seu mais íntimo eu. O corpo despejado de qualquer jeito em frente à televisão, os pensamentos ganhando sentimento e o cachorro do lado de fora namorando a lua.


Andréia Donadon Leal é escritora mineira e amiga muito querida, além de ter a alma artística dentro de si mesma. É também artista plástica.
Governadora do Instituto Brasileiro Culturas Internacionais -MG
Diretora do Jornal Aldrava Cultural
Membro da Academia de Letras Rio - CM
Membro da AVSPE e da Academia Maceioense de Letras

5 comentários:

gláucia lemos disse...

PRosa fluente, gostei.

Gerana disse...

Muito bom o texto. Valeu a leitura!

Anônimo disse...

Andreia, minha amiga, Amei seu texto! E parabéns pelo lindo BLOG,
Estimado Carlos.
Beijos
Malu Mourão

Carlos Vilarinho disse...

Maravilha de texto de andreia, muito legal, mesmo.

Carlos Soares de Oliveira disse...

Muito bom.Parabéns.Vim fazer uma visita, desejar um abraço e dizer que as portas de meu blog e coração estão abertas