sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PÉROLAS DE MINHA INFÂNCIA(iniciação poética)- de Carlos Soares de Oliveira

Quando escrevi meu primeiro texto realmente poético, eu tinha uns 8 ou 9 anos. Cursava a terceira série e me rendeu também minha primeira nota 10 na escola.Se não me engano, talvez a única, pois eu era um aluno mediano, meio largado.Só estudava mesmo na reta final, aí sim, queimava as pestanas para passar de ano.Foi no dia que a professora Dona Jandira, colocou nas carteiras, uma estorinha iniciada por ela e o dever de casa era, cada qual, terminar com sua própria imaginação.

A estorinha dizia de um veadinho, perdido na floresta, sem sua mamãe.Terminada a aula, cheguei em casa e vi minha mãe, no tanque, concentrada nas roupas e nos problemas.Ela não notou minha presença. Fiquei ali vários minutos olhando-a e naqueles momentos, lembrei-me do veadinho e fiquei pensando. Nunca me imaginei sem minha mãe.Como eu me sentiria de repente sem ela? Ela... que cuidava de minhas doenças. Que colocava comida no meu prato.Que penteava meus cabelos para eu ir pra a escola.Que me ensinou Pai Nosso e Ave Maria.Logo me imaginei chorando perdido, igual ao veadinho da estória, porque o mundo, afinal era uma selva perigosa.

De repente ela se virou e disse: Você está aí, meu filho? E por que está me olhando assim?

Então me aproximei e abracei sua perna dizendo: Porque eu gosto muito da senhora!
No que ela agachou, me abraçou com o avental molhado e deu umas alisadinhas no meu rosto, respondendo: Ah... meu filho! Só você mesmo para animar meu dia. Pra que vou ficar triste se tenho um filho tão bonito e tão doce? Vem, vou colocar comida pra você.
E foi puxando minha mãozinha esquerda, que mais tarde escreveria meu primeiro texto poético.
Claro que não me lembro dele todo, mas me lembro de como o terminei. A mamãe do veadinho, quase tão frágil quanto ele, mas abnegada, voltou, enfrentou perigos, fugiu das feras, passou fome e sede, mas encontrou o filhinho e assim, viveram felizes para sempre.Ainda pus uma nota no final que dizia que nenhum filho merece ficar sem a mãe e que nenhuma mãe merece ficar sem o filho. E que o amor de mãe é o que mais se aproxima do amor de Deus.

A professora não corrigiu os trabalhos no mesmo dia que entregamos. Passaram-se alguns dias, até que ela me chamou: Carlinhos,venha aqui na frente, por favor.
Ai,ai,ai. Professora chamando na frente não deve ser coisa boa. Menino sempre está com impressão de que aprontou alguma, mesmo não tendo aprontado. Só não fui com muito medo porque Dona Jandira era uma professora muito carinhosa. Poderia no máximo repreender, sem muita briga.Ela disse: Adorei sua estorinha.Parabéns, ganhou 10! Muito linda! Onde você buscou inspiração, menino? E eu respondi: Na minha mãe. Porque nunca havia me imaginado sem ela.Acho que eu ficaria igual ao veadinho da estorinha.

Pois bem, ela fez mais alguns elogios, leu para a classe toda e disse que levaria para outras professoras lerem nas outras salas.Eu não tinha a dimensão exata do que aquilo representava, só queria curtir meu "10" e contar pra minha mãe, afinal ela foi a musa.

E assim tudo começou. E assim a poesia me trouxe até aqui.Uso a poesia como um escudo.É minha espada do bem, ainda que eu seja super-herói de mim mesmo. Mas jamais vou me trair.Com ela, superei obstáculos, problemas difíceis, dificuldades financeiras, amor fracassado, insônia, quartos de pensão, saudades dos irmãos, amigos que morreram. Com ela, derrubei arrogâncias. Com ela aprendi mais sobre humildade.Através dela, eu evoluí, como homem, como gente.Aprendi a ser manso.Aprendi a ver a felicidade nas coisas simples da vida.Com ela, fui forte. Fiz gente sorrir e chorar. Jamais me deixei abalar. Pelo contrário, foi nos momentos difíceis que escrevi alguns de minhas poesias preferidas, tipo: Aqui jaz um flor... O Sonho das estrelas... Fênix...Ícaro Moderno, etc. Digo numa poesia uma frase assim: ‘Cada poesia é uma flor que sai de mim, que eu rego e entrego.E que esse jardim seja fértil até o fim’. Não faço poesia para mim.Faço para as pessoas.Gosto de dar poesia a elas.Tem poesia minha em todo canto. Espanha.Portugal. Estados Unidos. Canadá.Austrália. Belo Horizonte. Ipatinga.Vitória. Rio Grande do Sul.Goiás.Pernambuco. Cada amigo que mora distante tem um pedacinho de mim.Minha parede também está cheia delas. A poesia é meu charme. Eu simplesmente amo poesia.
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CARLOS SOARES DE OLIVEIRA 17-07-2008

Um comentário:

Carlos Soares de Oliveira disse...

Obrigado,amigo.Sinto-me honrado,orgulhoso e lisonjeado de ter sido publicado no blog de uma pessoa tão importante e atuante na cultura brasileira.Grande e emocionado abraço.