sábado, 27 de setembro de 2008

ALERTA - de Flamarion Silva

Meus olhos contemplam o mundo
E vêem tudo num minuto,
Só não vejo este décimo passar,
Mas respiro ainda um segundo.
Cada vez que ele passa,
Já morri um pedaço,
Já ingeri um nada de nada
E já senti um tudo de tudo.
Apenas não percebo ao que chego nesse espaço,
Que de repente é vital,
Preciso e curto.
Quem sabe amanhã está longe,
E esta poesia seja apenas um alerta,
Ou quem sabe preveja luto
A quem lê o que escreve o poeta.
Mas, não se assuste, amanhã já passou, foi ontem.
E você nada fez, apenas dormiu, acordou,
Passou pelo o que não viu, não sentiu,
Apenas passou.
Qual o teu nome?
Sua carne já está apodrecendo
E o seu passado nem existe,
Não está nos livros,
Não está na memória,
Nem no arquivo morto – dos vivos.
Seus netos vão procurar encontrar o que nunca esteve,
O que nunca se soube, o que se perdeu.
Você já ouviu falar em Shakespeare? Napoleão?
Eles existem ontem e persistem hoje,
Como fantasmas nos livros, na Pátria.
Então se apresse, agarre este segundo.
Cuidado! Ele pode ser a morte; pronto, já passou.
E você nada fez, nada criou,
Apenas dormiu, não sentiu,
Apenas passou.


Flamarion Silva é escritor baiano, contemporâneo de Carlos Vilarinho, Renata Belmonte, Tatiane Gonçalves, Nélio Rosa, Heitor Brasileiro Filho, Andréia Donadon, Clevane Pessoa, Edinara Leão...

5 comentários:

Gerana disse...

Muito bom. Valeu!

Flamarion Silva disse...

Gerana: deixei bem claro para Carlos que não sou poeta, nem pretendo ser. Gosto mesmo, e exclusivamente, de ser contista. Obrigado pelo comentário. Abraços.

Carlos Vilarinho disse...

Flamarion, irmão! Coloquei "o poeta" pela qualidade de suas palavras: poéticas e prosaicas. Nada de má-fé ou de malfazejo. Pelo contrário.
Sei que se trata de contista, texto em prosa. Onde também é minha praia, mas tanto eu e você temos a poesia na prosa.
Né não?

Flamarion Silva disse...

Carlos, o "poema" era para ser publicado mesmo. Apenas ratifiquei para Gerana e principalmente para mim que nessa praia eu me afogo. Poesia, poesia é coisa de gênio. Eu sou apenas um vagabundo das letras. Grande abraço.

Carlos Vilarinho disse...

Aaah, então BELEZA!!!EHEHEHEH.
Tens razão, poesia é para gênios mesmo.
Ô negócio difícil de fazer....