sábado, 30 de agosto de 2008

NOSTALGIA URBANA- de Carlos Vilarinho

Foi num clima de romance que fui pela primeira vez à Ponta de Humaitá, na Boa Viagem. Tinha dezesseis anos e Berenice quinze. Foi a ela que ofereci “chega de saudade” como se fosse eu que tivesse escrito, dois dias depois ela descobriu tudo ao ouvir um vinil que eu mesmo presenteei e não lembrava. Tom & Vinícius. Zangou-se com razão, daquele dia em diante comecei a reparar melhor as imagens ao meu redor e rabiscar letras genuinamente minhas para Berenice. Pensamos assustados, já no Humaitá, que todo aquele sol que ali se ia, cairia sobre nós e nos engoliria. Era um sol enorme e alaranjado, parecia estar se espreguiçando depois de irisação e um dia de trabalho quente, que a Ponta de Humaitá oferecia a nós dois amantes. Eu jamais esqueceria Berenice e seus olhos oblíquos e tristes. Seu rosto liso e macio que dava forma a sua voz pueril e seus cabelos de Iracema. Naquele instante ali, esqueci a seleção de Telê. Só Berenice dissuadia meu pensamento canarinho, até então o que me importava era ganhar a copa do mundo em Barcelona, Madri ou nas ilhas Tenerife. Sonho que se frustrou mais uma vez naquelas datas, como se sabe. E andar com Berenice sobre a cidade de São Salvador.

Desde sempre sentia meu envolvimento intrínseco e peculiar com os lugares que ia, sobretudo com meu pai. Lembro-me perfeitamente que toda vez que chegávamos, eu e meu pai, a praia de Itapuã, aquelas ossadas gigantes de baleia espalhadas sobre a praia me davam medo e dor de barriga. Era filho da cidade e de vez em quando ouvia umas gargalhadas invisíveis de satisfação comigo mesmo. E achava que a natureza de Salvador ria para mim. A apreensão também me assaltava quando ouvia minha mãe falar de Fundação Politécnica. Era o dentista. Tinha pavor, aliás, ainda tenho. No entanto quando chegava à Avenida Sete de Setembro e via o movimento, já corriqueiro dos anos de chumbo, anos setenta, de AI’s e estrelas de ombreiras mal polidas, onde todos estavam submetidos à obediência civil americana, estúpida, grosseira e mortífera, sentia, entretanto e paradoxal ao movimento turvo, um alívio de amálgama. De uma forma ou de outra estava protegido em minha cidade. Praça da Sé e o Elevador Lacerda, Farol da Barra e a praia de Ondina.Tudo romântico e paisagístico, gostava de beber Fratelli e crush. A vida era muito mais que um sol estático, amigo Drummond. No entanto esse conjunto de coisas e sentimentos de urbis deve-se somente à minha existência. Em fazer parte do espaço que não sei como me escolheu e acolheu. Sem ser poeta e andando em lodaçais macadames, bebo, fumo, desejo, julgo, riu. Um riso largo, caliente e tropical de São Salvador. Ao mesmo tempo em que entristeço, não sei mais onde está Berenice. Torno-me então poeta e sinto toda a quentura morna, modorrenta e cheia de pachorra, de um pôr do sol na lembrança tupi da índia Berenice. Suas frases tremidas e arfantes ao brincar comigo na rampinha do Teatro Castro Alves no dia que o papa morreu. Ela sumiu, virou-se e esqueceu que existo.
Agora estou na rua, como um miserável vagabundo. Rindo à-toa, sem itinerário, mas na rua, como um poeta sem casa engolido pela cidade de santos sábios velhos e africanos. Pregando poesia e arte nessa infinita inquisição. Na contramão, há as pregações irresponsáveis de inquisidores que não querem o poeta por perto. Ele, eu o poeta, bole insistentemente com a consciência, e a inconsciência coletiva ou singular, de quem pára para ouvi-lo. Deus e o diabo estão por aqui, na rua. Na 28 de Setembro, na Travessa da Ajuda, no Porto da Barra. Na madrugada com os porcos que servem à literatura marginal. À margem do querer e eu também escrevendo sem margem. Do ler, romantiquê. Não mais fui à ponta de Humaitá e agora só bebo conhaque. Hoje sem Berenice meu pensamento é imundo. Vivo nos becos sombrios ao lado do carnaval, na Rua do Sodré e na Gamaleira sem dilúculo de dedos rosados. Sem crepúsculo sonolento e romântico lá da ponta...

Carlos Vilarinho 27/08/08

2 comentários:

Gerana disse...

Muito bacana o texto; adorei o clima de nostalgia. Parabéns, bacana mesmo.

Renata Belmonte disse...

Parabéns, Carlos! Bem legal seu texto.
Abraços