quinta-feira, 14 de agosto de 2008

FIM DO CAMINHO- de Renata Belmonte

Andava pela rua e a canção a acompanhava. Os outros transeuntes não pareciam ouvi-la, caminhavam em passos apressados. “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Seu destino ainda não era certo, não sabia se iria conseguir chegar. ”Se tenho coragem de tomar banho pelando, imagina do que sou capaz”, pensou num tom de quem queria deixar claro de que estava segura de sua decisão.
Despejava sorrisos largos por cada metro que passava. Nem sempre eram bem aceitos. Alguns a olhavam com a dureza de quem precisa de um tempo para aceitar o inesperado. As crianças gargalhavam, misturando suas crueldades infantis com curiosidade. A mendiga da esquina, esticou a boca repleta de dentes podres e piscou o olho.
“É promessa de vida em meu coração”. O mar nunca tinha estado tão azul. Parecia que o céu tinha lhe dado este presente. Não que ela fosse acreditar em suas próprias ilusões. Sabia que todos poderiam até saber, que aquele era o dia do seu aniversário e que era pisciana, mas a certeza de que não se importariam era maior. Ninguém tinha tempo a perder com bobagens astrológicas. Suas vidas tinham que ser uma sucessão imediata de fatos para que fizessem algum sentido. O ideal é que pouco se tenha tempo para pensar, pois é o pensamento que induz ao erro. É antinatural ficar racionalizando as coisas. Os bichos não perdem tempo com idéias tolas e vivem seus destinos pela intuição. Pouco erram. Vão aonde devem ir. ”Só vou parar quando meus pés não mais agüentarem, ou quando chegar ao fim do caminho”, disse para si mesma, decidida.
Procurava, com cada passo, sua verdadeira libertação. A brisa soprava em seu rosto, levemente, enquanto seus cabelos misturavam-se incoerentes. Já sentia abandonados seus sentimentos antigos, já confortáveis. Por quilômetro percorrido, ia tornando-se uma santa. Seus pequenos detalhes sujos, como a mania de roer unhas e as mentiras que contava para a prima rica, tinham se tornado parte do passado. Estava tão limpa e pura quanto um bebê que acabou de nascer.
Tinha nos quadris, talvez por influência rítmica da canção, um movimento tão gracioso quanto os da Garota de Ipanema. Nunca tinha sido garota de nada. Viveu uma vida que foi arrumada contra ela. Até antes de sair de casa, tinha sido difícil para alguém guardar em mente seu nome. Era mais uma no meio de infinitos irmãos. Tentou evitar, durante toda a vida, que perguntas existenciais viessem à sua mente. Preferia não saber quem era, a ter a dor de mais uma decepção.
“É pau, é pedra”. Sempre amou aquele colar de pérolas que tinha no pescoço. Dizem que pérolas, quando não usadas, tornam-se envelhecidas. Suas pérolas eram a única coisa verdadeira que teve. Sempre lhe fizeram companhia. Não ficariam velhas, se dependesse dela. Logo, iriam juntas para o lugar de onde vieram.
Não mais se incomodava com os risinhos insolentes que percebeu durante o caminho. ”É promessa de vida em meu coração”. Seu corpo completamente nu se arrepiou todinho de excitação. Estava perto de experimentar o começo de tudo. ”É o fim do caminho”. O fim para ela representava um novo começo, uma nova chance. Respirou fundo e pulou, do alto do morro, em direção às águas azuis de março, que fecharam sua vida e o verão.

Renata Belmonte
Do livro Femininamente, Renata Belmonte Prêmio Braskem Cultura e Arte, Casa de Palavras, 2003, BA

4 comentários:

Flamarion disse...

Eu gosto muito deste conto, Renata. O fluxo narrativo percorre a via do coração. E ele é belo e é forte, e é triste. Beijos.

Carlos Vilarinho disse...

Flamarion tem razão esse conto é no mínimo diferente com um desfecho inesperado.

gerana disse...

Sem dúvida, um bom texto.

Renata Belmonte disse...

Obrigada!!!
Bjs