segunda-feira, 19 de maio de 2008

O AMOR SAUDOSO

Quando estamos embebidos na paixão preliminar, todas as palavras adquirem solene ternura. Contudo a ventania que sopra a vida tornando, sobretudo as coisas efêmeras, não consegue, nem com o seu tufão, apartar ou arrastar para longe um amor inexorável. Mesmo numa floresta de espinhos, vagueando e entre devaneios, a perenidade de um amor é inabalável. Tão sólido como uma rocha e intransponível como a própria atmosfera. Assim é o amor. Nessa semana de luto para a Bahia, luto para quem cria, quem pensa e interage, lembrei-me desse texto meu longínquo, no fundo da gaveta de minha memória. E como memória, saudade, amor são parentes próximos. Como seu Jorge Amado e dona Zélia deixaram saudade sobretudo para a arte literária, ofereço a eles e a você leitor uma pequena, simples e humilde homenagem de um autor também solitário e que procura se espelhar nos grandes como eles.

O AMOR SAUDOSO


Um dia ao chegar em casa, li uma notícia que um homem de setenta e cinco anos havia morrido de amor saudoso. Mas o que seria aquilo? Amor saudoso? Continuei lendo a matéria e soube que se tratava de um amor que durou sessenta anos. Desde os quinze ele amou e foi amado. De longe. Isso mesmo, o senhor Eduardo, gabava-se por isso. Nada mal, contudo o Eduardo saudoso não tinha nada de sombrio, nem em suspense, nem criava corvos. Como o seu autor preferido, um certo Edgar...Tratava-se de um homem alegre que conhecera seu amor aos quinze anos, na adolescência. Viram-se somente uma vez e trocaram juras de amor eterno. Eduardo e Julieta. Julieta, leitora assaz e que era homenagem a um ser da literatura clássica universal. Não se lamentava por seu Romeu chamar-se Eduardo. Pelo contrário amava-o com todas as forças do seu pensamento. Não se sabe o que houve para uma separação tão prematura e inesperada. Eduardo e Julieta beijaram-se e amaram-se só um dia. O único dia que o universo conspirou para aqueles dois amantes. Durante toda a vida os dois mantiveram-se casados. Tiveram filhos e netos. Engraçado que os dois sempre repetiam juras de amor e rezavam um para o outro todas as noites esperando o reencontro. Julieta ficou viúva primeiro e não teve, de imediato, forças para ir buscar Eduardo, mesmo depois de ler “Amor nos tempos do cólera”. Soube também que ele ainda estava casado. Cerca de um ano depois Eduardo ficou viúvo. E sem que ninguém esperasse, procurou por Julieta. Rodou a Bahia inteira e não a encontrou. Desistiu, talvez Julieta já estivesse morta. Foi difícil, mas conformou-se. Encontraria no paraíso. Já havia passado pelo inferno e purgatório, entraria então no paraíso e a encontraria ao lado de Beatriz e Dante. Um dia ao descansar na varanda da casa admirando a baía de Todos os Santos, ouviu o tilintar da campainha.
_O senhor Eduardo Bernardo?
_Sou eu...
_Aaaah! Graças a Deus o encontrei... Há meses estou a sua procura...
_O que houve?
_A dona Julieta Tavares me encomendou essa busca, e quando eu o achasse fizesse o possível para levá-lo até ela... O senhor estaria disposto?
Num ímpeto de euforia e felicidade, ruborizado e, mesmo mostrando as marcas do tempo nas rugas salientes, Eduardo riu contente e alegre. Solicito inquiriu o rapaz sobre Julieta durante horas a fio. O rapaz contou tudo sobre Julieta e ao saber que ela estava viúva a mais de ano, chorou pelo tempo perdido. Disse ao rapaz que não podia ir até o Mato Grosso, onde morava Julieta, os médicos não iam autorizar, mas faria tudo. Pagaria o que fosse para que ela tornasse a Salvador para viverem juntos.
E assim foi feito, Julieta se desfez de tudo no Mato Grosso. Eduardo preparou toda a casa, o jardim e a varanda onde eles ficariam a contemplar o pôr-do-sol. Seu coração batia forte de saudade amorosa. Julieta era só sorrisos. Chegara o grande dia. Eduardo dormira pouco na noite anterior, ansioso e angustiado em ver Julieta. Acordara com batimentos fortes. Era a alegria. Julieta desembarcava no aeroporto. Eduardo sentia o coração de Julieta chegando. Batia mais forte. Quanta saudade! Quanto amor! Tudo seria diluído a poucos minutos. Julieta sentiu um aperto no coração. Emoção e falta de ar. Eduardo e o médico. Julieta no portão. Eduardo e o médico. Julieta, o aperto no coração e a iminente perda. Eduardo e Julieta, as mãos dadas, rugas do tempo. O amor estava no ar.
_Vou esperar você... Nunca é tarde para continuar se amando...


Carlos Vilarinho outubro 2005

4 comentários:

Gerana disse...

Bela homenagem ao amor! Seus textos sempre mostram que a emoção é o que move o mundo.

Gerana disse...

Já mudei seu endereço lá nos meus favoritos do leitoracritica.blogspot.com/
Agora a entrada é por Carlos Vilarinho, ok?

ediney disse...

paixões preliminares, o problema são as paixões finais

Alexandre Lobão disse...

Oi Carlos!

Parabéns, você consegue envolver e comover em poucas palavras! :)

Forte Abraço!