terça-feira, 20 de maio de 2008

CONTO DO LIVRO "AS SETE FACES DE SEVERINA CAOLHA & OUTRAS HISTÓRIAS" lançado em 2005 pelo selo LETRAS DA BAHIA.

SEGREDOS E MEMÓRIAS DE UMA MULHER ATRAENTE E DESPUDORADA
Primeira parte

Talvez Teseu e tesão façam apenas aliteração das palavras. Entretanto o fio de novelo doado por Ariadne a Teseu salvou-o da solidão, do abandono, da morte. Consideração que ele não retribuiu. A volta para os braços da mulher amada, satisfazer-se nas relvas da Grécia antiga tornou-se modelo de volúpia, desejo da aliterante tesão. Eu não sou Ariadne e, diferente dela, amei alguns homens na minha vida, mas nunca tive uma paixão arrebatadora, eu acho. Sabe, eu acredito que o amor é o único responsável por uma mudança efetiva no fundo do ser humano.Todos os sentimentos produzem ou reproduzem algo nas entranhas de cada um de nós. A paixão, quando rejeitada, produz raiva e ódio. A inveja emergente de um olhar recalcado, traz repulsa e obsessão. Mas o amor não, o amor leva você ao paraíso. Como Dante e Beatriz. Como muitos homens rudes que vi se transformarem em pétalas de rosas sutis ao acariciar meu corpo. Hoje moribunda aqui nesse sofá, e ditando para você minhas memórias e meus segredos de mulher fêmea ao extremo, percebendo o orvalho de fim de tarde que cai sonolento e triste de outono, no salto de noventa e seis anos, recordo-me do meu tempo de existência, meus namoros, amores e gozos. Minhas indiscrições, minhas olhadelas por um buraco de fechadura como num filme em wilde-scream assistido por uma televisão de quatorze polegadas. Ana Virgínia é o meu nome. Letícia, Elizabeth e Olga me chamavam de Ana Vagina. Dadas as minhas criações eróticas no orfanato onde terminávamos numa masturbação coletiva. Sempre fui muito bela. Muito mulher e vaidosa. Provoquei homens e mulheres em desejos ardentes. Mas sempre gostei mais dos homens. A pegada, as mãos grossas e porosas entre minhas pernas e o bafo quente. Nunca tive preconceitos sexuais. Essa coisa de gays, lésbicas, sapatões, transexuais. Tudo sempre existiu. Claro, não dessa forma que é hoje. De uma forma ou de outra a sexualidade do outro, a alteridade sexual é que importa para todos. Machistas, feministas, homos, heteros e até pudicos. Pois então prepare-se, filha, e anote tudo. Pois esse é um relato de uma mulher que viveu em torno do amor e da satisfação corpórea e que não se arrepende de nada. Acredito que a felicidade é o gozo sexual, só assim atinge-se o nirvana, não há outro meio.

SEGUNDA PARTE - SÁBADO 24/05

3 comentários:

Gerana disse...

É com orgulho e segurança que indico o livro de contos de Carlos Vilarinho: As sete faces de Severina Caolha & outras histórias.

Alexandre Lobão disse...

Oi Carlos!

O texto está bem escrito, mas achei que faltou um pouco "toque feminino" na voz da narradora. Conheço mulheres que pensam assim, mas a forma como elas colocam as coisas é um pouco mais... sei lá... feminina! :)

Mas, como eu disse, está bom; vou continuar acompanhando!

[]s!

Bruno R.Ramos disse...

Queria adquirir o exemplar do livro. Se puder me enviar por e-mail a forma de obtenção da sua obra, agradeceria muito.

Abraços

E-mail: brunoteenager@gmail.com