segunda-feira, 17 de novembro de 2008

FUGA - de Alexandre Lobão

Você já teve um daqueles pesadelos que parecem não terminar nunca?
Daquele tipo em que você acorda, assustado e aliviado por sentir o calor e a segurança de sua cama, até que o mundo vira de cabeça para baixo, e você, apavorado, percebe que seus temores não eram um sonho, afinal?

E depois acorda novamente, e a cena se repete, e você acorda de novo, e de novo, sem nunca saber se continua dentro do mesmo e terrível sonho, ou se finalmente acordou?

Pois, para mim, esta foi uma noite daquelas.

Acordei banhado de suor e respirando com dificuldade, mas fiquei grandemente aliviado quando percebi que finalmente acordara e o pesadelo havia chegado ao fim.
Isto, por cerca de um ou dois segundos.

Foi o tempo que, assustado, levei para perceber que não estava em minha cama, e que o ar viciado que eu respirava combinava perfeitamente com a escuridão total que me cercava.

Tentei me mover, e percebi, desesperado, que estava preso em uma espécie de caixa. Sem parar para pensar empurrei com toda força a tampa, e não fosse o peso das lembranças me assaltando ao mesmo tempo em que meus olhos reconheciam o ambiente, eu poderia jurar que continuava no pesadelo.

Eu estava dentro de um caixão, que descansava sobre uma mesa de mármore na mesma cripta do cemitério da cidade que eu havia visitado no dia anterior.

Com o medo fazendo subir a bile de meu estômago, pulei do esquife, meus olhos aflitos procurando a saída e circulando nervosos sobre inúmeros caixões, organizados em prateleiras de cada lado da cripta.

Com um grito que morreu em um nó na garganta, percebi que vários dos caixões se abriam, como se o barulho que eu fizera tivesse acordado seus ocupantes. Apesar da escuridão do local, pude entrever corpos magros e pálidos, olhos vermelhos e dentes. Grandes e afiados dentes.

Em pânico, disparei pela única saída da cripta, que levava ao mesmo corredor que eu percorrera no dia anterior. Senti, mais do que vi, as sombras escuras que se aproximavam e gritavam como que em agonia, logo atrás de mim.

Ao fim do corredor pude ver um raio de luz, uma esperança ao longe que minhas pernas pareciam não ter força ou velocidade suficiente para alcançar.

Com o desespero me impulsionando, não ousei me voltar, mas pude sentir o frio das mãos esqueléticas que tentavam me agarrar, rasgando minhas roupas e arranhando as minhas costas. Pelo canto dos olhos, pude ver sombras correndo, movendo-se de maneira estranhamente inumana não apenas no corredor atrás de mim, mas também pelas paredes e teto.

A pouca distância.
Minha mente, estranhamente confusa, lembrava da cena semelhante, ocorrida no dia anterior: eu entrara na cripta, para roubar um crânio como uma estúpida prova de coragem para meus amigos.
As memórias, flutuando, trouxeram de volta à boca o sabor aziago do medo que senti quando, aterrorizado, vira – como agora - os caixões se abrirem lentamente.
O desespero repetido de correr pelo mesmo corredor, com as mesmas sombras me caçando, quase me levou à loucura.

Sem tempo para articular nem um pensamento a mais, saboreei a sensação de júbilo e vitória ao me atirar para a luz do dia, deixando na escuridão os vampiros que gritavam de frustração e ódio.
Apenas quando senti a luz do sol queimando minha carne até os ossos foi que lembrei que no dia anterior havia uma grande diferença!
Eu havia corrido até o fim do corredor e, da mesma maneira, atirei-me para fora, deixando os vampiros para trás.

Porém a luz do dia, agora mortal para mim, me lembrava que no dia anterior, ao fim do corredor, eu havia encontrado a noite.
E vampiros não temem a noite.

Alexandre Lobão, escritor de Brasília

Um comentário:

Alexandre Lobão disse...

Obrigado pela oportunidade de divulgar um pouco do meu trabalho aqui, Carlos!

Forte Abraço a você e todos os leitores!