domingo, 27 de abril de 2008

O DEGOLADO segunda parte

Ao sentar-se no banco do ônibus, ao lado da janela, imaginava uma forma de descobrir como teria sido o término do seu ciclo anterior a este. Talvez tencionasse evitar a própria morte. Conhecendo-o a si mesmo como tal, provavelmente não teve uma morte traumática ou dolorosa, de qualquer forma tentaria descobrir e viver mais dentro do seu próprio ciclo. De repente duas coisas o tiraram da concentração astral. A primeira foi conseqüência do seu pensamento em relação a sua morte. “Qual o real objetivo do universo em fazer com que todas as existências se repetissem entre si?”. O professor deu um muxoxo e soltou um palavrão, diante do desconhecimento da resposta. Em seguida, uma intrigante voz, macia e quase chorosa ao seu lado.
_Sua vida parece ter chegado em sua encruzilhada fatal...
_Como? Falou comigo, senhor?
_Falei, sim, filho... A sua descoberta não foi por acaso, todos os astros do universo conspiravam a seu favor, sempre conspiraram, seria uma questão de horas ou dias... Mas presta atenção nos seus atos, cuidado com o que quer fazer...
_Mas, quem é você? Como sabe o que eu descobri?
_Não se aflija, as pessoas tem como objetivo comum ajudar umas as outras, embora isso não seja de grande propagação e em certos casos, aliás, não é de grande aceitação, mas a função principal é essa...
_Mas quem é você? E o que você está falando? Que história é essa? Eu sempre ajudo todo mundo, ninguém me ajuda, isso sim...
_Por isso mesmo que estou lhe fazendo lembrar a sua própria função... Quanto a sua descoberta, ela já estava prevista, todos sabíamos que cedo ou tarde, de uma forma ou de outra você lembraria...
_Lembraria?
_Claro. Você não sabe que já passou por isso? Então se prepare, pois eles não mais te deixarão em paz... Sua paz acabou, filho... Você tem que pensar rápido como agir e deverá ter sempre em mente uma coisa: ninguém sabe, ou terá conhecimento do que você tem na sua consciência, portanto cuidado com as palavras que vai usar, não tente persuadir para não repetir o erro...
No momento que o professor abaixou a cabeça um pouco e voltou para o estranho para perguntar sobre o erro, ele já havia sumido, deixando no ar um cheiro de pipoca. Além de umas sílabas, uns monossílabos, ao que parece de outro dialeto. E veio-lhe na mente “iorubá”. Era assim: “Lá yá tú ká”. Além de “ranti, ranti”
Para arrefecer seu afã, tudo deu errado na reunião do departamento de estudos físicos, pelo menos a princípio. Primeiro, por pouco os colegas não o deixaram falar. Professor Edgar era desdenhado com considerada veemência toda vez que pedia a palavra em reuniões dessa natureza. Sempre o deixavam por último e mesmo assim quando o calor da lorota e do chiste sem ética em relação aos alunos estava no seu auge. O professor Edgar sempre fora voto vencido. O que o sustentava era o concurso que havia feito para ensinar na faculdade e a consideração da maioria dos alunos. E a admiração silenciosa sob estranho sigilo do professor Rui Mauriti, seu chefe e da professora Lisbela. Em meio à balbúrdia e barafunda que tomavam a reunião, Edgar enfim impôs a voz. Começou a narrativa do seu segredo do universo e à proporção que explanava, avançava o seu conteúdo, foi testemunha de olhares incrédulos e inquietos. Alguns ouviam embasbacados, outros refutavam e riam de soslaio, o chefe do departamento e a professora Lisbela, a única que pelo menos o cumprimentava e às vezes ajudava-o com o plano de aula, consentiam afirmativamente com a cabeça.
_(começou timidamente)...Há tempos faço esse estudo e é o que particularmente me move aqui, tenho conhecimento com as leituras que faço há anos que Platão desconfiava, já naquela época, sem ondas de rádio, televisão e muito menos Internet, que o alinhamento dos planetas de tempos em tempos provavelmente fazia com que tudo que ocorrera até então no mundo e em especial no planeta terra, tornaria a repetir-se, ele fez conjeturas e escreveu em sua obra Timeu... Sem falar em Galileu, que provavelmente também desconfiava dessa hipótese... Contudo, há falhas na concepção de Platão, é mais provável que haja realmente uma repetição, mas não em função do alinhamento dos planetas... Em seguida, Nietzsche e a teoria do eterno retorno, as forças finitas e o tempo infinito já passado, os estados possíveis já devem ter ocorrido e o estado presente é uma repetição, as citações de Marco Aurélio em que quem viu o presente já viu o passado e o futuro, a origem das espécies de Darwin, a dedução intuitiva de Einstein e outros estudiosos...(firmando segurança) Bom, conforme percebi com todos esses grandes mestres é que a vida são ciclos circulares, quando um ciclo se encerra, haverá um outro para que o indivíduo cumpra sua missão que deixou de ser cumprida e ao mesmo tempo realizar com êxito melhor aquelas que já foram realizadas, há, entretanto uma condição humana para que isso continue, o que amedronta o homem em toda a sua existência é a idéia da morte, de desaparecer, para amenizar isso e para usar efetivamente seu mecanismo de defesa e consolação mais eficaz, a palavra, a linguagem, o homem criou a religião e alguém para ele creditar sua passagem ao suposto paraíso... O homem criou Deus e ele não existe, como Nitzsche havia descoberto ou proposto... E com isso a palavra misericórdia ganhou força no universo, é preciso arrepender-se antes de encerrar cada ciclo, isso é uma constatação meramente científica que o próprio homem transformou em religião...(totalmente seguro e dominando a reunião) Criou-se então a idéia de pecado, de diabo, de inferno, paraíso entre outras... Entretanto tudo não passa de energias circulares a espera de um novo ciclo, essas energias enquanto aguardam o retorno tendem a olhar e zelar pelos seus que ainda estão por aqui, cada um cumprindo sua missão... A isso chamam de espiritismo, almas penadas, exus e outros... Há também uma outra coisa bastante interessante, muito se fala nos santos e orixás, Buda... E eles existiram realmente, a existência deles em ciclos estão realmente no passado, provavelmente eles não voltam mais (de repente uma interrogação hesitante e indecisa apareceu no meio do discurso), apesar do clamor de alguns seguidores energúmenos de que o Messias tornará (essa última frase foi fracamente pronunciada denotando insegurança, mesmo assim ninguém notou)... O fato é que os santos ou orixás, guerreiros do apocalipse, Buda, enfim, foram pessoas que sofreram ao extremo, além de serem visionários, assim como o próprio Jesus Cristo... Sofrimento e sabedoria são sinônimos que se completam, quanto mais se sabe mais se sofre e vice-versa, então estes ao alcançarem sabedoria acima da média, digamos assim, o próprio universo os presenteia transcendendo-os à condição de luz... Cabe uma dúvida aí, disse há pouco que esses iluminados não mais voltariam, se for assim eles atravessam pelos ciclos na condição de luz ou energia sempre induzindo o bem... Ou em cada ciclo vigente um deles ou todos retornam com outra forma. Existem conversas que Buda e Cristo foram as mesmas pessoas... Acho que essa segunda hipótese reforça ainda mais a tese cíclica, até porque os ensinamentos são muito parecidos. Eis que o Messias já pode ter voltado inúmeras vezes... Da mesma forma são os marginais e assassinos, e aí entra a concepção de misericórdia que falei há pouco, esses contestaram, negaram as indulgências que são dadas pelo universo em harmonia para o ser humano melhorar, com a revolta e a negação então, eles irão habitar guetos negros e sombrios. Sem poder abdicar do sofrimento inerente, eles passam a torturar quem quer que seja em seus ciclos diariamente...Portanto misericórdia e indulgência são dadas pelo universo e não por Deus...
Terceira parte 30/04 (véspera de feriado)

Um comentário:

Carlos Soares de Oliveira disse...

Muito bom seu blog.Parabéns.Carlos Soares Governador Valadares Mg