sábado, 15 de março de 2008

Provavelmente os fatos da vida não são por acaso, desde um encontro não programado aos projetos de vida feitos por segundos e terceiros quando ainda estamos na barriga. Segundo o psicanalista Carl Jung há um nome para isso, chama-se: sincronicidade. Dessa forma então as energias que norteiam, rodeiam, interagem com cada um de nós são parecidíssimas umas com as outras. Não há, no entanto desaparecimento de quem quer seja. Na vida ou na morte fatalmente haverá os reencontros. E assim foi o que ocorreu no dia 14/03/08 quando reencontrei, sincronicamente, é claro, alguns colegas do curso de Letras Vernáculas. Entramos juntos através de vestibular em 1986, estudamos juntos. Rimos juntos. Decepcionamos-nos, às vezes um com o outro. E sumimos para nos rever sexta-feira (14/03/08) no Largo de Santana, no acarajé de Dinha, no Rio Vermelho, Salvador-Ba. Eu e minha imagem de maluco beleza, com todo respeito a Raul, Patrícia, afetuosa e apaixonada pelas pessoas, leitora e com história para contar e Naílton Rocha, rapaz do interior baiano, de olhar puro e sincero. Vi nos olhos dele a satisfação franca e verdadeira quando recebeu meu livro “AS SETE FACES DE SEVERINA CAOLHA & OUTRA HISTÓRIAS” de presente. Além de minha companheira Alba, sempre bela e perspicaz com os instantes, e Mariana, filha de Patrícia que vi bebê e agora na luta da vida. Naílton não se contentou e começou a folhear e comentar alguns títulos do livro, ao passo que subitamente pediu papel e caneta para registrar o momento. Confesso que eu mesmo ainda não havia pensado nisso. O amigo concentrou-se, olhou o tempo e o espaço ao redor e mandou o texto que publico agora para você leitor. A alegria e o deleite de estarmos juntos ali foram tão grandes que Naílton se esqueceu de nomear sua obra. Tomei a liberdade de fazê-lo, cheio de dedos e preocupado com a responsabilidade de instituir a cria alheia, lembrei-me então da expressão que a própria Patrícia criou nos assuntos de nossos e-mails trocados “AO REENCONTRO”.
Carlos Vilarinho 15/03/08

AO REENCONTRO
By Naílton Rocha

A fila cresce e diminui. São muitos os que esperam. Andam e param. Médicos, estudantes, prostitutas, senhoras, senhores, jovens, adolescentes. Não se conhecem, mas têm o mesmo objetivo. A noite une todos. Se completa ou não, aos outros não interessa. Sou cidadão, trabalhador, comum, feliz, infeliz. Parece mágica, uns falam de amor, outros de trabalho, outros de nada. Nada importa, só a vontade. Vontade de satisfazer o paladar, a alma, o Eros, o ego. Não importa, nunca importa. Nunca pensei nisso, algo nos une, nos separa. Um velho amigo, uma velha amiga. Um filme, uma peça, uma música, o feijão e seu preço, o mar e suas ondas. Saudades, atualidades, a noite... A fila anda, sem perceber me vejo. O acarajé frita, os amores acontecem. A vontade é satisfeita, a música toca, a vida flui e a fila anda. Com pimenta? Sim, à gosto do freguês. Voltar ao passado, sofrer, alegar. Viajo no tempo, na vida...Talvez seja loucura, talvez não. Sou vivo, amo. Um idoso, um cão, uma mesa, pessoas e a noite passa como se a existência não importasse. Amanhã acordo, lembro da noite passada. A fila, do que somos nós. Nós quem? A fila anda, a vida flui e o acarajé frita à espera de quem está na fila...
Naílton Rocha é professor de Língua portuguesa.

3 comentários:

Alba disse...

Lindo depoimento de Nailton(nanai), sensivelmente introduzido por vc...
A fila anda e as pessoas aguardam, com a esperança de ver o não notado, pela pressa que nos IMPEDE de saborear a vida, a pressa que nos IMPELE a devorar, engolir, por falta de tempo para nutrir-se com a plenitude dos momentos.
Na ciranda da vida,nos reencontramos todos: eu, minha filha Priscilla, a amiga Mari,novas vivências com suas velhas vivências, no CONGRAÇAMENTO armado pela sincronicidade dos destinos...
Sem julgamentos, com aceitação e amorosidade...como sempre desejei ser e estar com vc, alma plena de amor e paz.

tita coelho disse...

ótimo texto!! Posso pegar ele emprestado para colocar no esperas?
beijos meus

glaucia lemos disse...

Parabéns, Vilarinho, textos bons, agradáveis.Nada como o amor às palavras, elas nos ajudam a viver. Voltarei. Abraço.