sábado, 21 de fevereiro de 2009

CARNAVAL-2009 de Carlos Vilarinho

Podexá que eu vou,
Subir a ladeira aos empurrão, dotô.
Podexá.
Dêxa que sirvo
Corda, cuspe, indiferença e aluá.
Ah, eu vou sim,
Rasgar abadá de cetim
Murro embaixo, murro em cima,
Zanzando, pulando, exu querubim.
De antemão lhe digo
Venha cassetete, cuzão, fardado chinfrim.
Ah, eu vou fudê sem fim.
Loura, trançado enganado,
Cabocla de beijo molhado,
Enfezado.
Neguinha quente, beiço, cabelo
Volta em branco tostado.
Tomaram minha avenida,
Tem nada não,
Choque de nariz na mão.
Festa de povo, não.
Festa de homem quebrão.
O jegue, o povo, o cartaz...
Foda-se, foda-se, foda-se”
Nu em cima do caminhão,
Se fosse Zé. O camburão.
Venha e medite no Farol,
A orixá turvará seu sol.
Ou o asfalto negro
E as águas revoltas
Salgadas em brumas
Vão corroer seu sorriso, sua alma,
Seu bolso corrupto...

sábado de carnaval 21/02/09
Carlos Vilarinho

3 comentários:

Bruno R.Ramos disse...

Belo poema. Um crítico ensaio sobre a manifestação que toma o povo em seu cenário de grandes demandas sociais (... "Tomaram minha avenida"...)num inusitado disfarçar da realidade. As entidades como manifestação da mítica popular afro-brasileira são também estâncias da razão e da revolta contra a massificação e da alienação das festas(..." Festa de povo, não.") A manifestação popular que se deixa servir ao interesse capital e a subserviência da cultura ao poder são denunciadas e reclamam justiça que se espera vir ao final (..."A orixá turvará seu sol.
Ou o asfalto negro
E as águas revoltas
Salgadas em brumas
Vão corroer seu sorriso, sua alma,
Seu bolso corrupto...").
Como sempre, o Vilarinho fala mais do que imagina nossa vã filosofia. Em minha humilse análise, as entrelinhas de seus textos são impactantes e sugerem várias reeleituras. Ao mestre, o agradecimento por nos servir de sua inspiração para grandes descobertas e encontro com a sapiência que lhe é comum.

Bruno Resende Ramos

Anônimo disse...

O mundo não tem jeito, prezado Carlos. Você acredita? Basta ficar em casa mesmo e ligar a televisão e logo a veia indignada do escritor lateja, rangem-se os dentes, cerram-se os punhos e os olhos rutilam. O bicho do outro lado nos morde e sopra, todos os dias. É a ira dos mansos. E este grito inaudível nasce e morre em nós.
Seu amigo,
Manuel Jorge

Gerana Damulakis disse...
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