quinta-feira, 31 de julho de 2008

ÔNIBUS LOTADO - Flamarion Silva

Ônibus lotado. Mais de uma hora do bairro em que moro até o centro da cidade, onde trabalho. Olho o ferro da cadeira e muitas mãos seguram firmes por causa dos solavancos do ônibus e também para não perderem o espaço. Uma brechinha, entre uma mão preta e cabeluda e uma delicada e branca de mulher. Solto a mão esquerda do ferro do teto do ônibus e intento colocá-la entre a mão preta e a mão branca, mais perto da branca, é claro, que não sou trouxa. Minha mão desce descontrolada e bate na cabeça do homem sentado à minha frente. O tipo, barba de três dias, cara por natureza enfezada, troncudo, olha pra cima e diz: porra, caralho, isso é uma cabeça. Desculpe aí, digo. Ele resmunga qualquer coisa, se ajeita na cadeira me empurrando para o corredor e retesa os músculos do braço, do peito, das pernas, do corpo todo. Todo o tipo é só massa. Me seguro para não encostar nele. Só que atrás de mim todo mundo que passa empurra, e aí esfrego o pau no ombro do cara sentado à minha frente, e de novo ele olha pra cima, diz uma palavrão, resmunga e me empurra com o ombro para o corredor. A viagem toda é isso, todos uns fodidos enfiando uns nos outros. No final a gente se acostuma e aceita que a coisa tem que ser assim mesmo. Naturalíssima.
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Mãozinha macia, branquinha. No dedo de casada a aliança. Minha mão anelando o ferro, folgando um pouco, encostando o indicador na pele de seda, escorregando meio boba mais para o centro da mão dela, que está também meio frouxa. Buraco na pista, solavanco, a mão branca da mulher casada escorrega no ferro e fica batendo na minha preta. Comercial. United colors of Benetton. Mulher branca com filho café-com-leite no banco de trás do carro luxuoso, um negro no volante, o carro pára, aproxima-se uma amiga da mulher que está no banco de trás e diz: hum, de motorista, hein! É meu marido, responde a outra. Você precisa rever seus conceitos, diz a mensagem. Não tá vendo não que sou casada? Pergunta a dona da mão branca, quase chorando. Que foi, minha senhora, tá me estranhando, é? Pronto, todo mundo no ônibus toma partido da ofendidinha. Pára no módulo! grita um crioulo que nem eu lá de trás. Que é isso, minha senhora, acha que tenho cara de quem faz terra em mulher casada? digo, sério. Sou até crente. É que dei um jeito de me esfregar no traseiro dela, músculos definidos, o pau bem no meio deles, a gostosa gostava, eu sei que gostava; o preconceito é que é foda. Surupembou. Você precisa rever seus conceitos, diz a mensagem.
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Ônibus lotado. Uns caras se penduram na porta. Uma velhinha se pendura na porta. Eu vou cair, diz ela sorrindo quando o ônibus arrasta. Tem uma velhinha pendurada na porta, motorista, grita um. Motorista, seu maluco, tem uma velhinha pendurada na porta, grita outro. Ai, eu vou cair, diz a velhinha sorrindo. O ônibus pára. Uma ranchada de pivetes avança e empurra a velha para dentro. O ônibus tá cheio, não tem mais lugar, gritam todos de dentro. Também somos trabalhadores, temos o direito de viajar, gritam desaforados os pivetes. Com jeito a velhinha cruza a borboleta e um senhor também de cabelos brancos se levanta e diz: senta aqui, minha velha, devia ter entrado pela frente. Com essa idade e ainda não entra pela porta da frente. A velha se acomoda e a viagem continua. Tem que passar pra frente, diz o cobrador, aí não dá pra ficar. Os pivetes trabalhadores se olham, pronto, é agora. Cala essa boca, filho da puta! diz o menor deles com a arma na mão. É um assalto! Passa a grana! Rápido! O cobrador, com a arma apontada na cabeça, rápido raspa o dinheiro da gaveta e entrega ao pivete. Este sorri e olha seus companheiros de trabalho. Perfeito, diz um deles. Tá aprovado, diz um outro que parece ser o chefe da gangue. O ônibus pára e eles saltam, como se nada tivesse acontecido. Somos trabalhadores, vocês estão roubando trabalhadores, seus pivetes, grita uma mulher de dentro do ônibus. E nós, não somos? responde um deles, esse é nosso trabalho. Pensa que é fácil, é?
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Revista policial. Desce todo mundo, as mulheres podem ficar, diz o policial com a arma na mão. Encosta aí, com as mãos pra cima; abre as pernas! abre as pernas! já mandei, e dá um pontapé na perna do homem que vai trabalhar. O homem, com medo, humilhado, abre as pernas, tremendo de medo. O policial enfia a mão por baixo. E você aí, o que tem nessa sacola? Coisas minhas, responde o rapaz. Joga tudo no chão! manda o tira. São coisas minhas, besteiras, nada de mais. Coisas suas, besteiras, nada de mais porra nenhuma, arranca a sacola da mão do rapaz e joga tudo no chão. Olha só pra isso, o filho da puta é veado, diz o policial com raiva, e toma, toma, toma pra aprender a ser homem. O rapazinho, envergonhado, humilhado, abaixa-se e pega suas coisinhas, cremes, esmaltes, perfumes, calcinhas. E você ai, negão, o que que tá olhando? Nada não senhor, responde o negro forte, tão negro e tão forte que nem o policial, musculoso de tanto carregar material para a construção dos ricos. Músculos. Só músculos. Seu polícia, uns pivetes, lá atrás, roubaram o ônibus, diz uma mulher. O policial, depois de bater, humilhar, assustar todo mundo, escancara sua bocarra de dentes cavalares, faltam uns três na parte de trás, e, gargalhando, diz: como “roubaram o ônibus”, então ele não está aqui? Toda a gangue da polícia ri do gracejo inteligente do comparsa. O ônibus arrasta, os policiais, os pivetes, ficam pra trás.
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Rapazes e moças fardados no fundo do ônibus. Batucam. Dizem que são estudantes. Essa cambada! Diz o passageiro trabalhador que quer aproveitar a viagem longa e tirar uma soneca. Mas não pode. Os marginais se sentam nos encostos das cadeiras e com os pés batendo nos assentos e as mãos socando o teto do ônibus fazem a festa. Quem quer seda? Diz um com voz normal, e logo os outros respondem com voz grossa, quem quer seda? Todo mundo que vai trabalhar e já está cansado se incomoda, mas ninguém diz nada. Béééé! Cócócócó! Mulher passando na rua. Fiufiu! Tesuda! Ah, ela deu o dedo, goza o comparsa ao lado, sua vaca, aqui pra você ó. E voltam a zoar mais eufóricos. Quem quer seda? diz o chefe da gangue com voz comedida. E logo os outros num coro de vozes avolumadas, quem quer seda? E batem, e zoam, são estudantes. O ônibus pára e eles, assim por onde entraram, passam e saem: pela janela, ou pela porta do fundo, raramente pela porta da frente. Ficam pra trás, assim como ficaram os policiais, os pivetes, outros trabalhadores, etc.
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Fim de mais um dia de trabalho. Dureza. Corpo quebrado. Uma fome! Sem contar que o patrão, assim que o empregado chegou, logo cedo, um pouco atrasado por causa da demora do ônibus, do engarrafamento e da revista policial, foi logo dizendo: bonito hein, e isso são horas de chegar? Vou descontar. Desconta no dinheiro, acrescenta no trabalho, como se fosse direito fazer isso. O empregado aceita calado e às vezes até agradece por o patrão ser tão compreensivo. Outros, poucos, sofrem implosão, aquilo que acontece com os prédios, que ruem sobre si. Mordem-se de raiva. Melhor seria fossem homens-bomba, aquele kamikazes que se explodem, explodem-se, mas levam junto uma cambada. Os caras são muito loucos! Mas tudo isso é besteira. E o brasileiro não teria coragem. Melhor é comer calado feito um carneirinho, bicho no cabresto. Béééé!
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Agora o ônibus vai, aos poucos, deixando para trás as luzes iluminadas dos bairros ricos, as calçadas bem calçadas dos nobres, as vitrines cheias de roupas chiques dos chiques, o perfume e o cheiro bom do que é bom. A brisa que vem do mar é fresca, as gentes, que não são “a gente”, na orla também são frescas. E sorriem com todos os dentes, e correm, e vão, e passam à frente. O ônibus agora corre e vai, passando os postes que vão ficando pra trás, e que mal iluminam as ruas mal iluminadas com suas lâmpadas quase apagadas, ou sujas, ou quebradas, ou... o ônibus tomba, buraco na pista. Tomara que não quebre, tomara que não quebre, meu Deus, rezam todos que querem chegar logo em casa, e que são as boas mocinhas, os bons mocinhos, os estudantes, os policiais, os pivetes, os trabalhadores, etc. Do lado a calçada verde vai passando, e os galhos dos matos batendo na lataria do ônibus. Do mato vem um cheiro de mato, e dentro do ônibus um cheiro humano, um calor humano que sufoca. Meu Deus, aonde nos levará este ônibus?


Flamarion Silva é autor baiano, contemporâneo dos escritores Carlos Vilarinho, Heitor Brasileiro Filho, Renata Belmonte, Tatiane Gonçalves, Andreia Donadon, Gustavo Dumas, Edinara Leão, todos mostrando o homem do século XXI.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

CHÃO DE CIMENTO ENCERADO- de Andréia Donadon Leal

Sem contestações, destino. Virar poeira cósmica, lixo ou alimento de vermes. Incorruptível tropa de mortais. Os acordes sinfônicos que tocam nos ouvidos acariciam, o Réquiem k.626, mozartiano, para ninar a marcha fúnebre. Que melodia é esta? Ora lírica, ora austera. “Réquiem aeternam dona eis, Domine”. Descanso! Exigente ou simplesmente imbecil. Asseverações. Transparecer certo esgotamento de viver nem quatro décadas. O corpo brada: descanso. Exaustão triplicada com afazeres inúteis. Comer todo tempo. Sentir saudade da criança que andava descalça pelas ruas de Itabira afora, arrastando o casco grosso que protegia a sola dos pés. Gargalhar com piadas sem graça. Sentir falta de si mesmo. Levantar da cama de solteiro, esticar o lençol, dobrar a coberta e colocá-la no guarda-roupa. Do cheiro de café passado na cozinha pequena de um pai com caneca cheia, mão esticada e sorriso tímido nos lábios. Pai é assim mesmo. Passa café todas as manhãs e tardes. Infeliz quem não tem a caneca repassada. Hoje distante, longe e cansado. A saudade bate forte; rever a cena e sentir o cheiro. Sentir falta da casa desarrumada de manhãzinha. De vassoura na mão varrendo pacientemente os cômodos empoeirados e sujos com fios de cabelos embolados nos ciscos. Encher o balde de água com desinfetante e amaciante. Passar pano no chão de cimento grosso. Vez ou outra, vontade de chegar perto do pai e pedir um chão de madeira para encerar. Música estridente e incompreensível. Ora movimentar as ancas com a vassoura na mão ou fingir tocar guitarra. Bobagem, quanta bobagem! Mãe fala: passa cera vermelha no cimento que o chão ficará colorido e pare de dar este xouzinho patético. E era verdade mesmo. O chão da casa era vermelho encerado e escovado. Em casa de escovão sem uso, escondido no porão. Sentir saudade das brincadeiras dos irmãos ainda crianças, que quase estoura as veias do coração de tanto sentir. Cresceram e envelheceram, uns de cabelos grisalhos, rugas fincadas no canto dos olhos e da boca e dobras no pescoço. Os sobrinhos que crescem numa fração de tempo. Sentir saudade da árvore de natal montada na sala de casa e bolas metálicas e estrelas coloridas e bilhetes pregados. Do sapatinho de crochê que só mães de outrora faziam para cada filho colocar na janela no dia de Natal. Era pequeno o sapato, as mães diziam. Por quê? Porque Papai Noel tem que presentear todas as crianças do mundo. Um presentinho para cada menino. Saudade da música que saía da vitrola e os meninos dançando e pulando no cômodo, pai e mãe mirando amorosamente as peripécias das crias. Sentir falta dos dias chuvosos, com relâmpagos estourando trovões nos ouvidos e a criançada agarrada na barra da saia da mãe. Sentir falta em andar de mãos dadas com os irmãos pela rua em dias de domingo e do cheiro de broa de fubá com canela ou pudim de pão. Dos ralhos e beliscões da mãe e do pai, quando chegava em casa depois da hora. Sentir. Filho que sente falta do pai a acordá-lo cedo para ir à escola e das histórias da avó. Até da imbecilidade e falta de maturidade adolescente. Da crise nervosa das meninas quando chega à primeira regra, como dizem ainda algumas mães. Das horas conversando com colegas de escola sobre o primeiro e gosmento beijo; da festa de quinze anos e febre da onda das debutantes. Será que ainda existem debutantes? Crise de adolescentes, sim. Falta da falta de experiência, do primeiro emprego, da primeira entrevista. Até da primeira transa, primeiro contato com sexo, adolescente, menina ainda: traumatizante, dolorido e às pressas num banco de carro. Uma experiência a mais ou a menos. Sorte ou falta. Não importa, pouco importa. Memoráveis incidentes ou melhor acidentes. Não vem ao caso, catastrófico. Sentir falta de não pensar muito, não querer mais, mais, muito mais e ainda mais. O caminho sem retorno. Se tivesse... Um chão de cimento grosso para encerar e outra música para ouvir, que não o Réquiem K.626.
Andréia Donadon Leal é escritora e artista plástica premiada, natural de Minas Gerais.

domingo, 27 de julho de 2008

"ESTÔMAGO" E A DIALÉTICA DO SUPRIMIDO-de Gustavo Dumas

O nordestino Raimundo Nonato aporta, origem nula, dinheiro zero, bagagem rala, na São Paulo de quem não tem carro, só canela. O cozinheiro Alecrim é recebido com zombaria na cela de Bujiu, o chefão da cadeia, ao se apresentar como Canivete – Nonato Canivete. Raimundo Nonato, Alecrim, Canivete tratam-se todos de facetas de um mesmo personagem, no caso o protagonista do filme de estréia do diretor Marcos Jorge, “Estômago” (Brasil/Itália, 2007), interpretado com acuidade pelo ator João Miguel, que se afirma no cinema brasileiro pela capacidade e ousadia de escolher e desempenhar bons papéis em filmes de diretores estreantes. (Antes de “Estômago”, Miguel atuara, por exemplo, em “Cinema, aspirinas e urubus”, de Marcelo Gomes, e no “Mutum” de Sandra Kogut.)

“Estômago” compõe uma massa, una, de duas tramas narradas em paralelo, que têm como liga o talento de Nonato/Alecrim com a culinária. Na “primeira” trama, é a mão-boa para a cozinha, ou melhor, para a coxinha o que vai garantir a Nonato abrigo para dormir, mulher para abraçar, patrão para lhe aporrinhar e, num segundo momento, até mesmo “ascensão” social. É no pé-sujo de Zulmiro (Zeca Cenovicz), que o trata como um dejeto, que Nonato descobre seu talento culinário, logo percebido por Íria (Fabíula Nascimento), prostituta boa de garfo por quem se apaixona, e depois pelo dono de cantina Giovanni (Carlo Briani), que lhe dá, além de um emprego melhor, uma oportunidade de refinar seu gosto e adquirir o conhecimento necessário para se afirmar como cozinheiro. No “segundo” enredo, outra “ascensão” se efetua: Alecrim ganha Bujiu (Babu Santana) pelo estômago e começa a galgar espaço na hierarquia da prisão devido à sensível melhoria na alimentação do chefe. Até então, é o Nonato submisso, resignadamente anulado quem toca adiante o seu dia-a-dia – de acordo com o dia-a-dia de quem manda. Esta subserviência lhe permite conquistar território, prestígio, em troca apenas de suas horas de trabalho e dedicação, leia-se: de seu silêncio, de sua não-opinião, do sacrifício total de seu tempo e vida.

Raimundo Nonato, no entanto, é Alecrim. E é Canivete, ou não? Trata-se de sujeito capaz de buscar, apreender e bulir com os sentidos; seus instintos encontram-se preservados e ele possui mão-boa para observar, selecionar e combinar elementos com uma finalidade estética, com ou sem receita. Ao fazer de sua coxinha de galinha a mais pedida do pedaço; e de seus pratos um instrumento de “consideração” no presídio, Raimundo Nonato/Alecrim/Canivete escapa à exclusão característica de sua condição inicial, em ambos os casos (rua ou casa de detenção, liberdade ou prisão). A oportunidade de inserção social se revela um interessante abismo: dado que a sobrevivência está a se garantir, não estaria a despertar, no personagem, uma fome de viver, sem mais negação de si mesmo? Mas, viver o quê? E quem é ele, afinal? Esta negativa, ainda que episódica, da negação que o sobreviver impõe acaba por desvelar um Nonato violento, em processo de détournement (desvio), no uso subversivo que o situacionismo (1) apregoou para este termo, nos idos da década de 1960, ao alertar, ao seu jeito, para o fato de que as situações da vida cotidiana tornavam-se, cada vez mais nitidamente, propriedade do poder, alegorias de um espetáculo sem artistas, cujos papéis são exercidos por especialistas, ou seja, figurantes em suas próprias histórias de vida.

Ao ser traído, Raimundo Nonato mata, abrindo mão de seu status quo na sociedade organizada. Para ascender hierarquicamente na sociedade carcerária, Alecrim trai. E mata, de novo. Em ambas as situações, agindo sempre com crueldade. O personagem vai do acesso de raiva ao controle metódico de seu crime em poucas cenas. O crime adquire, assim, um fim em si mesmo, um fim estético, como um prato em cozimento para um banquete de sangue a ser servido e sorvido na temperatura que mais bem convier à saciedade do apetite.

O apetite, ou a falta de – não seria este o mistério do filme? Senão, vejamos... No universo fabular instituído com competência – e estômago! – por Marcos Jorge, Raimundo Nonato/Alecrim é o excluído de origem a fuçar e carpir temperos num mundo que pasteuriza sabores e plastifica sentidos. Neste mundo, a violência é recorrente, porque resulta de vícios e contradições estruturais. Nonato Canivete Alecrim a usa com requinte de chef, pois é este o papel que ele “escolheu” desempenhar e também porque a escalada na hierarquia do poder não vale, para ele, todo o sacrifício do paladar. Por outro lado: Nonato ascenderia a quê? E para quê?! Eis que seu caráter bruto o resguarda da venda plena de seus atos para um sistema que o nega, desde sempre, como sujeito, e que só o acolheu na condição de sobrevivente. Qual é o gosto disso? A pouca cultura, sábia, neste caso, de Nonato parece nos sacudir para o drama de nossa época: o fragmento de ser que a utilização totalitária de nosso tempo pelo poder nos torna. Ou não seria a metrópole o lugar de diálogo-trânsito forçado entre estados de ser esvaziados, que consentiram pessoalmente para a alienação de suas próprias vidas cotidianas?

Nonato Alecrim Canivete sintetiza o nosso vazio perambulando pela cidade mais viva que nós, que estamos nessa apenas para sobreviver; é o ninguém que se projeta em movimento repentino de um pretenso existir, servente que certo dia destoa, dialeticamente posto em situações que pressupõem, ainda que por uma via catártica, a superação da supressão de si pelo poder. Trata-se “Estômago”, enfim, de um retrato fílmico de nossa perplexidade e impotência diante de uma condição humana que só encontra sabor no plano da virtualidade. É cinema concebido para quem tem estômago para conviver e ficar bem em uma sociedade surrealisticamente situada no limiar entre civilidade e barbárie, no aguardo ciente e tenso pelo próximo conflito a se instaurar sob nossos olhos saturados.

Notas:
(1) Ver Internacional Situacionista. Situacionista: teoria e prática da revolução. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2002. Coleção Baderna.





Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008) e “Idade do Zero” (Escrituras, 2005).
Contato: zehgustavo@yahoo.com.br
contato@algoadizer.com.br

sábado, 26 de julho de 2008

AS CARTEIRAS, AS IDIOSINCRASIAS E A CARONA- Carlos Vilarinho

FUI EDUCADOR DO PROJOVEM-2007-PROJETO DE INCLUSÃO DO GOVERNO FEDERAL PARA JOVENS QUE NÃO FREQUENTAVAM A ESCOLA HÁ ANOS. NOVIDADE PARA MIM ESSA DEMANDA, MESMO NUNCA ME IMPRESSIONANDO COM OS OCORRIDOS, FRUTO DA EXPERIÊNCIA DA OBSERVAÇÃO ANTROPOLÓGICA LITERÁRIA, ESCREVI ALGUMAS CRÔNICAS DO LUGAR QUE TRABALHAVA, ESSA É UMA DELAS.


PROJOVEM 03

Finalmente as carteiras de duas turmas chegaram. Nós, os professores, fizemos infinitas improvisações para dar aula nesses primeiros dias. Não havia como delimitar um assunto, por exemplo, de Matemática. O professor Urbano, já apresentado como titular das Exatas, não tinha como definir ou conceituar Fração, por assim dizer. Aliás, tinha. Só que no outro dia teria que falar tudo novamente, pois alguns faltavam, ou entravam em outra sala com outro professor e outra matéria, evidentemente. Todas as turmas misturadas e uma mixórdia total. Com a chegada das carteiras podemos então encaminhar os docentes para as suas devidas classes e assim começar de fato o programa.
Assumi então meu posto de orientador em uma das turmas. Cada professor é orientador de uma turma. Não sei se isso funciona mesmo, achei uma barra meio forçada. Eu, pelo menos, nunca orientei pedagogicamente algum aluno. Acho que nem eu mesmo sou orientado. Quando a equipe docente caiu em si, em torno do horário mandado, percebemos falhas gritantes. Por exemplo, a professora Flora em um certo dia da semana permanece os cinco horários da noite em uma mesma turma. Dá duas aulas de específica, ou seja, sua própria matéria, e então permanece lá, na mesma turma fazendo trabalho de orientação. Não entendi desde o início das reuniões burocráticas (e quanta reunião burocrática) o que se deve realmente fazer para orientá-los de forma convincente. Como deve ser uma orientação. Aliás, não só eu, a professora Helena e Flora também não. Urbano e Dido, remanescentes desse programa educacional em ano passado, tentaram nos explicar sem sucesso. Se entender, mais na frente com o bonde em andamento, explicarei ao leitor.
Comecei a perceber que os estudantes não se comportavam como estudantes, mas como alunos. Alunos bem primários. Paradoxos desconcertantes. Ao mesmo tempo em que eram imaturos,mal-educados e toscos, se apresentavam também carinhosamente e desconfiados. Percebi também que a desconcentração é para eles o grande adversário. Ainda não faço a mínima idéia de como fazê-los entender que o ar de uma sala de aula é diferente de qualquer outro tipo de atmosfera. O engraçado é que a maioria não se dá conta que ali talvez seja a última estação de transbordo para, ainda talvez, salvar-lhe a vida. Na verdade não sei se é engraçado, preocupante, triste ou infeliz. Não gosto de ter certeza, mas nesse primeiro momento, nesses vinte dias iniciais, não vi progresso discente. Fiz um esforço homérico, com todo respeito ao rapsodo grego, para não sequer pensar em subutilização ou inutilidade. Confesso-lhes, meio encabulado, que para não cair em desgraça descrente, até então, pensei no salário. Sentia saudades diariamente de minhas aulas na Universidade, dos meus alunos mais velhos e esforçados.
Para finalizar esse registro, contar-lhe-ei um episódio que não sei se o considero normal, incomum, preocupante ou apreensivo. Dada a universalidade nivelada rasteiramente da demanda estudantil, os discentes não se diferem muito. São muito parecidos e agem quase sempre da mesma forma. Um dia acabei minha aula e ia para casa. Ao chegar no pátio, percebi em uma das salas uma discussão entre duas alunas. Fato não notado pela professora Flora que fazia ajuste no horário com a professora Dido. Desconfiei mas não me deixei levar em conta no ocorrido. Segui meu caminho. Quando já estava para sair da sala dos professores, vi uma das que estava discutindo sair apressada, destemida e audaz da sala. Com uma revolta no semblante e com uma expressão anormal, disse-me que ela não era louca. Ao passo que concordei, discordando por dentro, imediatamente. Até então ninguém do corpo docente, além de mim, e administrativo havia atentado para o fato e sua gravidade. A estudante que, segundo ela, não era louca, ficava cada vez mais ofegante, respirava fortemente e avermelhava-se acumulando ódio e raiva. Tentei acalmá-la em vão. Ela não ouvia nada, nem ninguém. Num rompante sensacional arrancou da bolsa uma tesoura e partiu correndo para tesourar a outra. Nesse momento, umas das coordenadoras do programa, não vou nomeá-la agora, até porque não precisa, chegou ao núcleo. E no corre-corre, conversa daqui, conversa dali, conseguimos, depois de algum tempo eu, a tal coordenadora, a assistente administrativa (depois lhe dou um nome) e um vigilante, colocar as duas alunas frente a frente para dirimir as dúvidas. A coordenadora com muita habilidade tomou de imediato a tesoura. E ali tive certeza do que disse lá em cima no início do parágrafo, esses estudantes agem da mesma forma. As duas em ímpetos misturados de raiva, ódio e até compaixão uma pela outra foram às lágrimas. Mesmo assim a muito custo se desculparam desconfiadas entre si e entreolhando-se de través.
Fui para casa, mas uma coisa me deixou vexado por entre os dias que se seguiram. A professora Helena, sobretudo ela, fez zombarias burlescas por essa minha intervenção no fato. A essa minha idiossincrasia. O que é pior comentou ironicamente com o tal marido durante uma carona. Nunca mais peguei essa carona...


Outubro 2007
Carlos Vilarinho

quarta-feira, 16 de julho de 2008

DES (A) TRAVESSADA- de Edinara Leão

o pano da tarde
escorregou vísceras
de açoite

eu me contatava com o rio
não podia ver as
teias do mar

teci redes
de eterna ausência
e, atravessada de tua passagem,
por minhas mãos,

desfiz a travessia
embarquei no nada
e nunca mais
desagüei


Edinara Leão escreveu Minhas faces (1990), (a)mostragem (2000) Fragmentos e Quando sopram os trigais (2005) e Estética e transcendência em O estudante empírico, de Cecília Meireles (2007). Nasceu em 30 de outubro de 1968. Escreve desde os 12 anos, participa de mais de oitenta coletâneas. Possui doze troféus literários. Foi “Escritora do ano” três vezes em São Luiz Gonzaga. Mestra pela UPF e doutoranda em Estudos Literários pela UFSM. Reside em Santa Maria. É mãe de Mirela, Pablo, Pâmela e Pedro. Vó de Bernardo. Recebeu o 2º lugar no concurso “Com a palavra, os professores do Brasil” em 2008, no Rio de Janeiro. Idealizou e coordena o Movimento virArte.
e-mail: edinaraleao@yahoo.com.br
blog: http://edinaraleao.blogspot.com/
site: http://br.geocities.com/ruidosdegarca/

terça-feira, 15 de julho de 2008

AMANHÃ, HOJE, ONTEM! de Andreia Donadon Leal

Da janela do apartamento eu espiava a vida lá fora. Era noite clara de lua minguante pendurada caoticamente no céu. Uma estrela lá outra acolá. Não ventava, não chovia nem fazia calor. Um extremo mal gosto do tempo. A maioria das luzes dos postes da rua estavam queimadas. Eu do alto do décimo quinto andar vigiava a rua avidamente; outros apartamentos, casas, cabines de telefone pichadas, janelas de outros apartamentos. Alguns estavam como eu, parado olhando tudo e nada, outros vestiam o uniforme doméstico, outros com o corpo jogado no sofá assistindo ao noticiário da TV. Não me dava o desatino de ligar a televisão e escutar a mesma ladainha de sempre; tudo era cópia da cópia, da cópia, da cópia de ontem! Às vezes fincava noite adentro a encarar a rua pela janela do apartamento e afogava em pensamentos estranhos, ou filosóficos? Será que estava ali mesmo? Eu era eu, ou era outro? Dentro daquela gaiola de loucos, sem sentido. De manhã levantava de sobressalto com o barulho tormentoso do despertador. Calçava meus chinelos e ia até o banheiro enfrentar minha carranca no espelho amassada pelas listras em alto relevo do travesseiro. As escovas estavam estáticas no copo de alumínio, encardidas de lodo. Duas escovas? Isso não tinha muito sentido. Elas só dependiam de mim para sua existência banal. O estômago contorcia com o gosto de flúor da pasta dental ressecada devido a úlcera não cuidada. Meu desjejum matutino: meia lata de coca-cola misturada com pó de café; um cigarro de maconha e a pílula da felicidade: 180 mg de fluoxetina. Trocar de roupa, qualquer uma serve, pegar a maleta e sair do apartamento. Mais uma vez o martelo no cérebro: pra que mesmo trocar de roupa? Num flash a resposta vinha à tona: para não ficar sujo; mas não estava sujo; para quê? Pra nada? Não! As pessoas trocam de roupa sempre! Tomam banho, trocam de roupa! Vão sair trocam de roupa! Vão trabalhar trocam de roupa! As roupas estão sujas? Trocam de roupa, aí tudo bem! Mas se estão limpas trocam de roupa também!? Tem sentido? Sim, por que isso é a convenção! Isso me causava pânico, tédio, raiva, angústia, revolta, ódio... Sei lá, pouco importa!
O bafo do vento soprou intrometido no rosto ressecado; os cabelos não mexeram engomados de poeira e gel; diabo com o sopro do vento! Não gostava do vento, do sol, do nascer nem do pôr-do-sol, da noite, da madrugada. Das pessoas andando na rua, às vezes, encostando em mim com seus corpos desastrados, uma trombada aqui outra desculpa ali. Ou um tanto pior quando me dirigiam um bom dia! Não olhava para as pessoas, estava farto da existência delas. Eram úlceras pro meu estômago queimado.
Os passos eram trêmulos pelo quarteirão. Dois longos quarteirões, até entrar num outro prédio. O elevador me enjoava o estômago, a cabeça, o corpo, a cara. As pessoas dentro dele me faziam pensar na imbecilidade de cada um que estava ali. Inclusive a minha, a nossa , a de todo ser humano com senso mínimo de raciocínio. O barulho da porta do elevador se abrindo, o porteiro anunciou o andar me acordando da excentricidade. Saí de má vontade do elevador vazio e me dirigi à sala com a placa : Psiquiatria e Terapia.
O ar da sala acometido por ar condicionado e incenso de flores que espantava maus fluidos. O som que entrou nos meus ouvidos lembrava clássicos que acalmavam os nervos. Nos meus não acalmavam, só irritavam, pois não suportava escutá-los mais! Música para os pacientes... Sem querer soltei um bocejo, um sorriso amarelo e finalmente um gemido enfastiado. Parei no limiar da porta, não entrei nem saí... Cocei a cabeça, forcei os olhos para a sala cheia de pessoas distribuídas uma a uma pelas cadeiras estofadas e confortáveis. A secretária no centro completando o cenário insensato do inexplicável olhava para mim com olhos forçados, certamente treinados, pois escondiam qualquer sentimento que viesse à tona em um ser humano que era cópia da cópia, da cópia, da cópia, da cópia... Levantou da cadeira como em câmera lenta, tudo estudado, calculado, treinado como ontem, anteontem, antes de anteontem, diversos anteontens, há uma década! Abriu a porta, levantou as sobrancelhas com ar de cinismo e um sorriso amável no rosto; delicadamente entrei na sala titulada: doutor...
Tudo em ordem... Fui para trás da escrivaninha, sentei na cadeira giratória, peguei as fichas dos novos pacientes com problemas velhos sem interesse, olhei para o relógio, mesma hora ontem, hoje e amanhã ... Amanhã?! Amanhã nunca será, porque quando chegar vai ser hoje! Tudo cópia da cópia, da cópia da cópia, da cópia da cópia...

Andreia Donadon Leal é escritora e artista plástica. Natural de Minas Gerais.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

MARIA de Flamarion Silva

“Se a alma e o coração sujos estão,
dê ao corpo água e sabão.
Se o lado de fora limpo está,
no lado de dentro fica a impressão.”


Remontam o caminho de volta os talhos da tiririca, que iam, de um e outro lados, penitenciando-me docemente. Também dos matos, as suas galhas, largadas num debruço, e o sol, no desmaio da tarde, caíam sobre mim.
Ia ao Apicum, onde me aguardava Maria.
Decerto por estas trilhas imaginais sons: os pés chapechapeando a água e a lama; sururus em suas cantigas estaladas; piados longe; chiados; aqui, mais perto, neste canto da memória, o desejo a sofregar: Maria antecipada, Maria distante, Maria nunca mais.
“De pirraça”, disse ela bem à frente, no caminhar da história. “De pirraça e por pura maldade me manda a mãe lavar o sujo da roupa.” “Maria!”, chamei, a que só olhasse para trás.
Virou-se. Viu-me e sorriu-se toda. Dengosa. Porém, o tempo também aí já é outro, mais tarde, depois de tanto antes nos termos tentado na ignorância sabida do caso. Foi o acaso que nos levou, outras desvariadas vezes, pelas mesmas várzeas do caminho.
No Apicum, Maria acocorada. Da bacia as roupas ia tirando. Os pés n’água. Abeirado a ela, puxei conversa, pois Maria, agora, tão calada, aguava a roupa, concentrada.
Puxei um fio:
“E é de maldade que Dona Esterzinha te manda lavar essa roupa, e sempre a esta hora alta, Maria?” Respondeu, sem dizer palavra, que sim. E esfregava o vestido com sabão e ódio. Porém dele e dela a nódoa não se soltava.
“Tanta raiva tenho dela!”
“Tem raiva dela não, Maria. É tua mãe.”
“Antes-de-ontem me mandou cortar uma gamela de maturi... Olha só o magoado das mãos.” “Maciazinha”, disse mentiroso, tocando de leve os talhos da mão.
Maria se recolheu diante do afago, como se fosse moça prometida transgredindo contrato.
“O pai me fez um agrado: me deu um corte de pano. Disse:”
‘É para fazer um vestido para a festa de ano; Nossa Senhora das Candeias merece.’
“O pai é bom. Ele me deu a fazenda e saiu para a pescaria. A mãe, afastada, na fonte, quando voltou e viu o tecido aberto na cama, disse:”
‘Tem dois vestidos do ano passado, Maria.’
‘Mas são desde o ano retrasado, minha mãe; tão ruços’, “disse suplicante.”

‘Este é meu, Maria, só meu’, “e saía feita dona do corte que me dera o pai.”
‘Conto pro pai’, “afrontei”

“A mãe virou-se, já com a bofetada guardada na mão. Chamou-me de atrevida. Juntos, ao pai se faz doce. Mas a mãe tem um fel no coração, amorzinho... Desde então me castiga...”
Maria se lavava no enxaguar da roupa. E esta foi a última vez que a vi animada. Deu-me seu amor por último e estas palavras, que nunca se me saíram:
“Quero morrer... quero morrer...”
Pensei morria por mim, ensandecida pelo fogo do nosso amor. Qual nada! Intenção escrita no pensamento, arma engatilhada.
E foi, que no outro dia, no mesmo marcado encontro, lá fui eu fazer companhia a Maria. Porém Maria não havia mais. Nem pios nem chios. Tudo silencioso, como se aguarda um momento a hora de um outro ver.
“Onde Maria? Terá ela lavado toda a roupa suja e se foi?” intriguei-me.
Mais adiante, num passado marcado, mais lá no fundo do Apicum, onde eram as águas mais profundas e menos confiáveis, eu a vi.
“Maria!”

Fazia-se tarde. O escuro descendo do céu assombrava tudo. Por certo eu não via direito. O corpo dela, assim meio de viés, preso pelos cabelos nas galhas, abandonado no mangue, como se lhe puxasse pelos cabelos a mãe, num último castigo.
“O mal se corta é pela raiz”, diziam os pais duros de antigamente.
Maria ficou em mim, como fica na boca o travo de fruta de vez. E nunca me saiu o gosto dela, este grudado na memória e na pele, com toda sua natureza, toda ela no meu eu, este travo que não me sai. Maria.