Cristiene conheceu Gervásio. Foi amor poucos minutos depois da primeira vista. De soslaio. Gervásio com sua tez morena acordou a veia do amor de Cristiene (aliás, cá entre nós, ela não gostava desse nome, não era nome para ela, era nome de mulheres dengosas e meigas, ele não era nada disso, a mãe havia feito a predestinação errada, mas agora que se haveria de fazer?). Depois desses momentos mágicos, Cristiene parecia encantada. Havia encontrado o seu Romeu, o homem de sua vida. Sentira-o no olhar, no corpo, mais – sentira-o em cada poro de sua pele. Mais! Sentira-o em sua alma. Então, sua vida em linha reta e bem sucedida, passou a ser invadida por uma dose de intranqüilidade. As horas custavam a passar. Ela esperava sempre um telefonema e quando vinha, acreditava em tudo o que seu doce amado Gervásio dizia. Ele era maravilhoso, era tudo o que ela um dia pedira a deus. Parecia nem existir...
Alguns amigos de Cristiene desconfiaram e, sem conhecer a doçura de Gervásio, tentaram alertá-la de um perigo. Afinal, Gervásio poderia... Mas era tarde. Ela estava irremediavelmente infestada pela terrível doença. Ao amanhecer, qual era o primeiro pensamento de C.? G. Ela perdera as contas de quantas vezes ligara para o celular de G., digo, para a secretária eletrônica de G., porque, a bem da verdade, o celular estava sempre desligado. Essa foi a primeira estranheza da apaixonada C. Por quê? Por que ele fazia isso? Aliás, esta foi a segunda estranheza. A primeira foi ele não ter dado endereço “residencial”, só comercial. Bom, mas aí, G., muito sério, explicou-lhe que estava se separando (ah! esses homens que estão se separando! – disse uma amiga, mas C. entendeu perfeitamente a explicação do sério G., ele não queria ser importunado, a amiga é que não o conhecia).
E assim foi. Uma vez combinaram uma viagem – G. era um viageiro de primeira linha, estava em muitos lugares em um curto intervalo de tempo. Falava com cada pessoa famosa e chique! Isso C. tinha um certo receio, “tantas viagens”, ele nunca tinha tempo para vê-la, mas amando-o como só ela o amava, acreditava que ele voltaria, um dia! – e C. se programou para a vigem, mas nunca aconteceu. E C. entendeu que ela se precipitara, não era a hora, ou teria sido porque ela não dera a resposta no dia e depois não houvera tempo para agendar. Essas coisas de viagens são complicadas mesmo. E C. compreendeu, e esqueceu esta história de viagens. Depois vieram as promessas – “vou na tua casa sábado”, “não, não vai dar, segunda eu passo com certeza!”, depois, “não prometo nada, vou ver se dá para passar na volta”, “na sexta, nem que seja dez minutos”. E C. já não vivia, arrastava-se pela casa à espera das ligações de G., cada vez mais espaçadas.
Mas o consolo da ingênua C. (agora ela tornara-se ingênua, desconsiderava a inteligência que tinha, porque a inteligência lhe dizia coisas que não era importante saber, agora C. era só coração) era de que ele viria. E veio. Duas vezes. C. passou, então, por curtos momentos de encanto, felicidade e poesia. C. renovou-se, tornou-se falante, saltitante... ante, e tudo o mais. E ele a convidou para ir embora com ele, por telefone. Ela já estava lá. Tanto queria ir que passou a achar sua vida sem graça, seria “vidinha” perto da que teria lá, e seus projetos agora só tinham um destino: o lixo; e sua vida só tinha um destino: G.. Onde quer que ele estivesse, para onde quer que ele fosse. Faria outros ao lado de G.. C. cada vez mais queria ir embora e começar sua vida “verdadeira” ao lado de seu doce amado G. agora tinha certeza de que ele a amava. Imagina! Morar com G. – o príncipe que jamais viraria sapo!
Uma vez ele ligou, cansado. G. sempre estava cansado, mas C. sempre perdoava. Eram as longas viagens... As vezes, o tom de voz mudava, e ele magoava o meigo coração de C. (agora ela tornara-se meiga). Mas ela o perdoava, era o cansaço, ninguém pode estar sempre feliz. Uma vez ela desconfiou que ele poderia estar mentindo, aliás, uma das vezes, ele o confessou. Uma luz vermelha acenou perigo ao coração de C.. E se ele tivesse mentindo o todo? Sobre as audiências da separação? (mas ele dizia até o lugar onde haviam sentado, o que ela alegou, que havia trocado de advogado – será que dizia isso porque o anterior C. conhecia?) sobre o atentado? (mas ele descreveu que os caras estavam encapuzados, a rua, o horário, a reação, o susto, o medo... não, não poderia ter inventado tudo aquilo!) sobre o enfarto? (até justificou-se que não ligava por aqueles tempos porque estivera hospitalizado, muito trabalho e stress, uma vez até ligou do hospital...? sobre a viagem? (ou as viagens, quem sabe nem teria saído de casa e dizia estar em Brasília, até nos Estados Unidos ele foi, eram muitos Congressos...) sobre o seu amor? (não, isso não, não era possível, ele dizia-lhe poesia ao telefone, criadas na hora, especialmente para ela, ela era uma privilegiada, ainda que tivesse mentido tudo, mas o amor era verdadeiro, ah! isso era!)...
Era?
Foi aí que C. caiu em si, parece. E foi caindo, caindo, cada dia uma coisa, parece que montava um quebra-cabeça, juntava peças e sofria. E C. ficou depressiva. Depressão era pouco. C. deixou de viver. Ficou obsessiva com o telefone, Entrou em pânico. E ele que não ligava. Nem ligava para seu tormento. Não ligava. Não ligava! Não ligava!!! C. escondeu de si o telefone, tapou com uma toalha, para não enxergar, mas ele continuava ali, e ela o imaginava e o barulho, o esperado barulho... Nada. C. já não agüentava o peso dos dias, do tempo que não passava. O doce G. a fizera conhecer o amargo da vida. C. já não lembrava como era sua vida antes, diziam que ela era uma guerreira (da onde? – perguntava-se). C. já não tinha vontade de fazer mais nada, sequer de viver... Uma amiga, desconhecendo-a, por nunca tê-la visto assim, receitou-lhe ler a mão. Começou, então, um verdadeiro arsenal de guerra. Ela, C., que detestava (antigamente) essas coisas para pessoas de cabeça fraca (porque antes, você não vai acreditar, mas C. era inteligente, tinha ares da lida, andava de taco alto, cabeça erguida, dona de si, ativa. É... você não acreditaria, mas ela andava maquiada, elegante, de vestido vermelho, agora, apagada, já sem a cor da nova estação, velhos panos cobriam sua nudez). Foi ler a mão. Depois búzios. Depois cartomante – ela que rira do conto “A cartomante” de Machado (quem bem poderia se chamar “A cartomente”). Todos diziam coisas diferentes e C., não sabendo em quem acreditar, beirava a loucura. Alguns diziam que ele voltaria, outros que eles os dois (C. e G.) haviam sido vítimas de um feitiço (mas quem? a ex, e era ex mesmo? a essa altura estava tudo tão embarulhado... alguém da sua família? quem?). Mas a frase que não lhe saía da cabeça era: “intrigas, traições e mentiras na calada da noite”. Nem sabia de onde viera essa frase, mas era cruel! Agora C. já não sabia se (ainda) acreditava, apesar de todas as controvérsias, no seu (já não tão) doce G.
A derradeira frase ia e vinha na mente de C., que virara balanço em redes de miçangas – brilho fátuo. Já não havia espaço para sonhos no coração de C.. Nem o consolo dos amigos adiantava. Quando reuniu forças, saiu, viajou, foi à praia. Viu maravilhas e...nada. Celular fora de área. Sempre. C. saiu de casa para não enlouquecer definitivamente. Um dia, ele ligara, mas ela não estava... (adivinhara?)
Mas um dia C. enxergou a si, pela lente do translúcido espelho. Viu que não era mais a mesma, e lá do fundo, do mais fundo de todos os túneis, foi saindo. Ela agora era comum. Como todas as gentes. Quem não sofreu de amor? Aprendeu que sofrer é tão somente mais uma forma de viver. Aprendeu que toda mulher inteligente, dona de si, essas coisas, um dia vira trapo nas mãos de um irresponsável coração. Hoje, faltam dois dias para um ano que C. Comum conheceu G. Encantador. Havia esperança em C., outra esperança – a de voltar à comum vida maravilhosa de antes. C. sofrida tem saudade de C. ativa e elegante. Nada como o tempo. Os amigos disseram que C. merecia coisa melhor. Eu mesma o disse um dia. Hoje, a velha C. cheia de vida, que G. matou, começa a ressuscitar.
Maria, amiga de C. C.
P. S. Um dia, C. arrumou as malas e foi à cidade dele. Não era para fazer escândalos, C. não era disso. Foi descobrir a verdade. A verdadeira verdade que as cartomantes não disseram. E a verdade foi vindo, não das pessoas (porque seus amigos não conheciam G.), foi vindo no dobrar de cada esquina, no descortinar de cada nova manhã. A verdade foi vindo e detonando o sonho, os cacos de sonho de C. cheiravam as cinzas do World Trade Center. Se virasse manchete, o título da história seria: “Sonho vira fumaça”, se poesia: “Cinzas de sonho”. Se crônica: “Dias dormentes”, se conto... (eu não sei se poderia a história de C. C. virar conto, pode?)
EDINARA LEÃO
inveja
Menina de trança,
o tempo vem
encostar-se em ti
para roubar um pouco
da tua graça.
Edinara Leão
mitologia
pobres parcas,
enrolavam fios
para atar destinos
– elas não sabiam fiar.
Edinara leao escritora gaúcha esteve recentemente na BAÍA DE TODOS OS SANTOS
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL- de carlos vilarinho
Para Gabriel Garcia Márquez
O galo derrubou um facho de mel
Sem precisão ou direção,
E pouco labéu.
Sem vídeo ou recital
Não há registro, não,
Adeus todo o Funchal.
Em emoção, assim, cênico papel
Bradou como o galo em paixão:
“Ninguém escreve ao coronel!”
Jaz a fome e a emoção,
Visgo derramado ao léu.
Cocoricó, latino-americão.
O galo derrubou um facho de mel
Sem precisão ou direção,
E pouco labéu.
Sem vídeo ou recital
Não há registro, não,
Adeus todo o Funchal.
Em emoção, assim, cênico papel
Bradou como o galo em paixão:
“Ninguém escreve ao coronel!”
Jaz a fome e a emoção,
Visgo derramado ao léu.
Cocoricó, latino-americão.
POEMINHA DE DOIDO- de carlos vilarinho
Dentro da minha cabeça vestibular
Há um equilíbrio louco.
Doido varrido mesmo.
Expressões caducas tampouco,
Ecoam assaz e indiferentes
Para deixar rouco
O grito do sonho intermitente.
Sem afasia,
Gagueira
Ou até ironia.
Minha cabeça insana.
Vagueia e silencia.
Bafo de cana.
Penso em mente vazia.
O que diriam decanos,
Se outros vingassem a Filosofia
Com a absoluta verdade
Forjada em planos?
Há um equilíbrio louco.
Doido varrido mesmo.
Expressões caducas tampouco,
Ecoam assaz e indiferentes
Para deixar rouco
O grito do sonho intermitente.
Sem afasia,
Gagueira
Ou até ironia.
Minha cabeça insana.
Vagueia e silencia.
Bafo de cana.
Penso em mente vazia.
O que diriam decanos,
Se outros vingassem a Filosofia
Com a absoluta verdade
Forjada em planos?
ESSA VIDA É UMA PASSAGEM- de Alba Bagdeve
Um buraco
Uma brecha do ser
Essa vida é uma passagem
Uma imagem
Mentira
Uma miragem
Verdade
É encontro
Alegria
Reencontro
Despedida
Saudade
Carrega-se tantas vidas
Em uma vida de cada vez
A senha de renascer
É lembrar-se do que fez
Para de novo não errar
Viver é esquecer
Para realizar a missão sem decorar
Alba Bagdeve é poeta baiana.
Uma brecha do ser
Essa vida é uma passagem
Uma imagem
Mentira
Uma miragem
Verdade
É encontro
Alegria
Reencontro
Despedida
Saudade
Carrega-se tantas vidas
Em uma vida de cada vez
A senha de renascer
É lembrar-se do que fez
Para de novo não errar
Viver é esquecer
Para realizar a missão sem decorar
Alba Bagdeve é poeta baiana.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
TENTAM NOS ENGANAR!- de Jackson Vasconcelos
É sexta-feira. Você resolveu dar solução definitiva às roupas que não cabem nos armários e pensou em contratar um marceneiro. Na tentativa de encontrar um bom profissional, você pede sugestão a uma pessoa amiga. “Olha, tem o seu Manuel. Ele é ótimo, com a vantagem de estar começando agora. O seu Manuel, que eu saiba, nunca fez armários. Por isso, você pode confiar plenamente nele. Ele entregará o trabalho no tempo certo e por um bom preço”.
A feijoada do sábado, somada com bebidas fortes, com chuva na volta para casa e com o frio danado fora de época, produziu fortes dores de cabeça e febre alta. O analgésico de nada adiantou. Pelo contrário. Fez com que brotassem por todo o seu corpo umas pintas vermelhas esquisitas. Você, então, por telefone, pede o auxílio de pessoas amigas. Uma enfermeira sugere que você procure imediatamente um médico: “Tem o Dr. Eduardo. Ele me parece muito bom. É recém-formado, começou ontem a trabalhar lá no Hospital. Você deveria procurá-lo”.
Na quinta-feira, você entra na cabine da farmácia para que lhe apliquem uma injeção. A moça, simpática e prestativa, conversa enquanto prepara a seringa: “Perdoe-me se doer ou se demorar um pouco, porque é a primeira vez que aplico uma injeção na veia. Tenho mais experiência com as nádegas”.
Novamente sexta-feira, e, na saída de casa para o trabalho, o carro enguiça. Alguém que passa indica para você a oficina mecânica: “O Zé Prego é muito bom. É um ex-guarda municipal que, depois de, por descuido, matar um sujeito, foi demitido. Como ele leva jeito com carros importados, tem uma semana que montou uma oficina aqui perto”.
Tudo isso parece loucura? Parece e é. Mas, não para todas as pessoas, nem mesmo para algumas que aparentam ter bom-senso. Por isso, a gente vê nas ruas, nas telas da TV e ouve nas rádios mensagens do tipo: “vote em mim, porque eu não sou político; eu sou candidato pela primeira vez...” e coisas do tipo.
Na verdade, o que essa gente diz é: “votem em mim, porque eu ainda não roubei; eu ainda não enganei; eu ainda não trai o povo”, porque é desse modo que eles entendem os políticos tradicionais que querem ter por colegas depois das eleições. Não é por outro motivo que criaram as suas mensagens. A rigor, o que eles pretendem é, com o nosso voto, ingressar no mundo da política, ambiente onde eles pensam poder enriquecer pelo roubo, enganar e trair sem o risco de punição. Sinceramente, não dá para entender de outro modo.
No entanto, o fato curioso no meio de todo esse movimento, que produz imbecis travestidos de candidatos, não é saber que eles acreditam nos enganar com o argumento da “virgindade profissional”.
É ver a cara limpa com que os políticos tradicionais, mais experientes, autorizam a candidatura e a aparição nos programas eleitorais de gente que os afronta com esse tipo de campanha. Porque, o formato na cabeça de quem assiste os programas eleitorais é esse: na tela, o discurso de um político tradicional vem, antes ou depois, de um sujeito qualquer dizer: “vote em mim, porque que eu ainda não sou igual a esse aí do lado, que rouba, mente, engana e trai”.
Fala-se, com justo motivo, em evitar a candidatura de políticos que não tenham compostura ou que não conseguem ficar perto do dinheiro público sem levar algum para casa. Neste campo de discussão, se deveria incluir também aqueles que vilipendiam a política em nome de tirar disso e da ignorância popular, vantagens para si ou para os seus. Porque é pena que usem a política do modo como a usam por aqui, sempre em proveito de poucos e em detrimento de todos.
*Jackson Vasconcelos é editor do site www.estrategiaeconsultoria.com.br
A feijoada do sábado, somada com bebidas fortes, com chuva na volta para casa e com o frio danado fora de época, produziu fortes dores de cabeça e febre alta. O analgésico de nada adiantou. Pelo contrário. Fez com que brotassem por todo o seu corpo umas pintas vermelhas esquisitas. Você, então, por telefone, pede o auxílio de pessoas amigas. Uma enfermeira sugere que você procure imediatamente um médico: “Tem o Dr. Eduardo. Ele me parece muito bom. É recém-formado, começou ontem a trabalhar lá no Hospital. Você deveria procurá-lo”.
Na quinta-feira, você entra na cabine da farmácia para que lhe apliquem uma injeção. A moça, simpática e prestativa, conversa enquanto prepara a seringa: “Perdoe-me se doer ou se demorar um pouco, porque é a primeira vez que aplico uma injeção na veia. Tenho mais experiência com as nádegas”.
Novamente sexta-feira, e, na saída de casa para o trabalho, o carro enguiça. Alguém que passa indica para você a oficina mecânica: “O Zé Prego é muito bom. É um ex-guarda municipal que, depois de, por descuido, matar um sujeito, foi demitido. Como ele leva jeito com carros importados, tem uma semana que montou uma oficina aqui perto”.
Tudo isso parece loucura? Parece e é. Mas, não para todas as pessoas, nem mesmo para algumas que aparentam ter bom-senso. Por isso, a gente vê nas ruas, nas telas da TV e ouve nas rádios mensagens do tipo: “vote em mim, porque eu não sou político; eu sou candidato pela primeira vez...” e coisas do tipo.
Na verdade, o que essa gente diz é: “votem em mim, porque eu ainda não roubei; eu ainda não enganei; eu ainda não trai o povo”, porque é desse modo que eles entendem os políticos tradicionais que querem ter por colegas depois das eleições. Não é por outro motivo que criaram as suas mensagens. A rigor, o que eles pretendem é, com o nosso voto, ingressar no mundo da política, ambiente onde eles pensam poder enriquecer pelo roubo, enganar e trair sem o risco de punição. Sinceramente, não dá para entender de outro modo.
No entanto, o fato curioso no meio de todo esse movimento, que produz imbecis travestidos de candidatos, não é saber que eles acreditam nos enganar com o argumento da “virgindade profissional”.
É ver a cara limpa com que os políticos tradicionais, mais experientes, autorizam a candidatura e a aparição nos programas eleitorais de gente que os afronta com esse tipo de campanha. Porque, o formato na cabeça de quem assiste os programas eleitorais é esse: na tela, o discurso de um político tradicional vem, antes ou depois, de um sujeito qualquer dizer: “vote em mim, porque que eu ainda não sou igual a esse aí do lado, que rouba, mente, engana e trai”.
Fala-se, com justo motivo, em evitar a candidatura de políticos que não tenham compostura ou que não conseguem ficar perto do dinheiro público sem levar algum para casa. Neste campo de discussão, se deveria incluir também aqueles que vilipendiam a política em nome de tirar disso e da ignorância popular, vantagens para si ou para os seus. Porque é pena que usem a política do modo como a usam por aqui, sempre em proveito de poucos e em detrimento de todos.
*Jackson Vasconcelos é editor do site www.estrategiaeconsultoria.com.br
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
BONEQUINHA- de Flamarion Silva
Caso de doidice... efeito da lua... maré ruim... coisa de sangue... trabalho feito por Das Candeias de seu João de Eleutério, desprezada que jurou vingança... vento ruim que bateu... coisa de cabeça... treta do homem... mas, o fato é que, a menina morreu pelas festas. No mar.
O homem puxou a poita da canoa, resoluto, enquanto mirava o barco de seu Tião, lá longe. Depois não conseguiu despregar os olhos da menina. Ela, sentada no banquinho do meio, sorrindo, se transformando nos olhos dele, derramando um olhar de feitiço para cima do homem que a via com uns olhos perdidos. O barco de seu Tião já lá longe, a vela cheia, bojuda, deixando para trás a Gerumana e o Oitizeiro de seu Nino. Já lá longe vai o barco de seu Tião.
A menina descamba a cabeça para o lado e sorri boazinha, sorriso de lábios frescos, nos olhos negros o azul do céu e o mar refletem. Nada que transtorne a calma do dia. O homem rema lento. A menina lenta cresce, assim com uns olhos bêbados de se deitar no sono. Sobre ela o homem se ajeita, enquanto afinca já com força o remo na lama. De repente ela grita, um grito que se ouve dela gemendo na alma, na cama canoa. Ais de dor, ais da mulher em parto. A flor em botão que despetala.
O homem sem nome, filho do Cão, arregala os olhos pro mar, pro fundo da lama, e Ela é calma como o silêncio mudo. A boneca a boiar, traz a lembrança do mar da Costa, quando ventava as palhas do coqueiro e tinha-se de se manter o chapéu afincado na cabeça pr’ele não avoar. Diziam que os corpos infantís vinham da África, a dar na costa. Os navios que naufragavam. Era uma alegria só que nem se pensava no desastre, pois tão distante...
Mas, agora, que o corpinho de sua boneca no mar, agora que seus olhos se abriam e viam, o homem não se acreditou são. Levou as mãos à cabeça e gritou:
– Deus! Deus! Deus!
Mas logo parou. Pois o barco de seu Tião já vem lá, saindo à boca do rio.
O homem tem o remo envolto, firme nas mãos rígidas. O barco de seu Tião vem lá com sua vela branca. E o homem, resoluto, ergue bem alto o remo e, sob o céu azul, desce-o com toda a força sobre a cabeça da menina, rachando-a.
– Pai. Pai, ele ainda ouviu ecoar no mangue. E, de lá de dentro, avoou uma garça vermelha, assustadiça.
Caso de doidice... efeito da lua... maré ruim... coisa de sangue...
Flamarion Silva é autor de O Rato do Capitão (FUNCEB, 2006).
O homem puxou a poita da canoa, resoluto, enquanto mirava o barco de seu Tião, lá longe. Depois não conseguiu despregar os olhos da menina. Ela, sentada no banquinho do meio, sorrindo, se transformando nos olhos dele, derramando um olhar de feitiço para cima do homem que a via com uns olhos perdidos. O barco de seu Tião já lá longe, a vela cheia, bojuda, deixando para trás a Gerumana e o Oitizeiro de seu Nino. Já lá longe vai o barco de seu Tião.
A menina descamba a cabeça para o lado e sorri boazinha, sorriso de lábios frescos, nos olhos negros o azul do céu e o mar refletem. Nada que transtorne a calma do dia. O homem rema lento. A menina lenta cresce, assim com uns olhos bêbados de se deitar no sono. Sobre ela o homem se ajeita, enquanto afinca já com força o remo na lama. De repente ela grita, um grito que se ouve dela gemendo na alma, na cama canoa. Ais de dor, ais da mulher em parto. A flor em botão que despetala.
O homem sem nome, filho do Cão, arregala os olhos pro mar, pro fundo da lama, e Ela é calma como o silêncio mudo. A boneca a boiar, traz a lembrança do mar da Costa, quando ventava as palhas do coqueiro e tinha-se de se manter o chapéu afincado na cabeça pr’ele não avoar. Diziam que os corpos infantís vinham da África, a dar na costa. Os navios que naufragavam. Era uma alegria só que nem se pensava no desastre, pois tão distante...
Mas, agora, que o corpinho de sua boneca no mar, agora que seus olhos se abriam e viam, o homem não se acreditou são. Levou as mãos à cabeça e gritou:
– Deus! Deus! Deus!
Mas logo parou. Pois o barco de seu Tião já vem lá, saindo à boca do rio.
O homem tem o remo envolto, firme nas mãos rígidas. O barco de seu Tião vem lá com sua vela branca. E o homem, resoluto, ergue bem alto o remo e, sob o céu azul, desce-o com toda a força sobre a cabeça da menina, rachando-a.
– Pai. Pai, ele ainda ouviu ecoar no mangue. E, de lá de dentro, avoou uma garça vermelha, assustadiça.
Caso de doidice... efeito da lua... maré ruim... coisa de sangue...
Flamarion Silva é autor de O Rato do Capitão (FUNCEB, 2006).
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